Para erguer novos pilares

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Era fim de tarde. Cheguei no entorno do Edifício Andrea ontem, pela segunda vez no dia, entre uma e outra ‘Ave Maria’ de alguns voluntários de fé, que se postaram de frente aos escombros aos sussurros de oração. Foi bem perto dali que os pilares do prédio se romperam, levando vidas, memórias, histórias. Levando certezas. 

Agora, a todo momento, as pessoas tentam manter-se fortes e muitas têm atuado como verdadeiros pilares a quem perdeu entes, lares, amigos, vizinhos. A si. Pilares também para manter os resgates no tempo programado pelos bombeiros: 24 horas por dia, 7 dias por semana. É um cenário de silêncios que gritam a todo tempo, há esperança. Aquela sensação de que “é preciso mais que nunca prosseguir”, como entoava em canto Gonzaguinha. 

É uma verdadeira fortaleza entre algumas vias do nobre bairro Dionísio Torres.

Correntes de gente que são verdadeiros sustentos tentam a todo instante manter-se firmes. Investidas mútuas de manterem-se uns aos outros de pé.

O apoio chega de todos os lados, funciona como gatilho e se espalha, misturando iniciativas, doações; orações, meditações que transmitem boas energias, apoio emocional, psicológico. Silêncio! Para ouvir possíveis ruídos de socorro. Muito tempo já se passou, cada ruído, cada pedido de silêncio é motivo para acreditar.

Os socorros vêm dos tantos quarteirões que rodeiam o que ainda sobrou do Edifício Andrea.

E muito restou. Os lutos, as perdas, as esperas se misturam. Se confundem. Novo silêncio. Respeito. Lágrimas banham um rosto quieto, atrás das grades que separam curiosos, imprensa, vizinhos do local do desastre, dos pilares rompidos. 

Um cenário de olhares distantes, ora para avistar porque correm alguns voluntários em direção à montanha de escombros. Ora para, possivelmente, abstrair das lembranças, do que já é certeza. Mais choro recatado. O tempo passa. Naquele momento, quando o sol já baixava, depois das 17h40, já se iam mais de 30 horas de trabalho sobre os escombros. A terceira morte confirmada. Lamento. Uma dor coletiva. Imensa. Mas o tom de esperança também vira pilar. É impossível estar ali e não silenciar. A gente sente, imagina. Há preces de todos os lados. Nem todas são de orações. As pessoas continuam chegando. Sacos transparentes. Primeiro com muitos pães. Pouco depois, com alguns lençóis brancos.</CW> 

Poucas palavras 
Um quarteirão inteiro isolado, marcado pelo entra e sai de gente, de carro, de câmeras, microfones, bandejas de comida. Afeto. Muita gente. Poucas palavras. Tantos silêncios. A gente vai e volta e os pilares continuam: doações de água, material de higiene. De rezas, preces constantes, sussurradas. Um aplauso perdido. Tem católico, tem protestante. Gente. Esperança de que o vaivém vai nos levar a novas vidas. Aprendizado.

Das duas vezes que estive no entorno do Edifício Andrea só ontem, em ambas, deparei-me com grupos de voluntários enfileirados. A primeira turma seguia em direção aos escombros, com grandes baldes, onde colocariam os incontáveis quilos de concreto a serem retirados do prédio na tentativa de encontrar vidas. Mais um exemplo de pilar, que se move, a todo estante para dar segurança. Desafio. Nada ali é certeza. 

Mais tempo. Nuvens de poeira dos escombros subiam, se confundiam no céu, caíam junto ao silêncio e os copos de água levados e trazidos para manter os pilares de pé.

Testemunhas ali vararam a madrugada e ainda que não tivessem muito a dizer, falaram sobre o “cenário de guerra” e os afagos cedidos a quem contava o tempo diante da espera, que já rompia o segundo dia da tragédia. 

A luz natural do dia baixava quase totalmente e logo mais daria lugar às lâmpadas para o sustento da iluminação diante da escuridão dos escombros daquele tanto de história que ainda resta para se contar do Edifício Andrea.