Não me chamem para banho de mar  

As manchas de óleo, petróleo cru, que atingem as praias do Nordeste são a cortina da crônica desta semana

Não me chamem para banho de mar. Porque tenho uma ferida aberta. Nós temos. O sal, que tanto nos cura, nos salva, agora também é apuros. Estamos atônitos. Isolados. Uma multidão de sozinhos; mergulhamos entre mares e manchas em um Ceará de fortalezas devastadas. Incertezas nos dão as maiores garantias. 

Não me chamem para banho de mar. Nem de lago, rio (?). Desastre. Estamos em guerra (fria?). Quisera ter no oceano margens para encostas. Nos sustenta aquela vaidade de que a água nos lava, nos limpa vida, alma.

Corpos avançam, combate à vista. Metáforas de sangue. Banho de mar sempre foi um doce dever. Perdi meu direto? 

Não me chamem para banho de mar. Dói. Agora, cada mergulho nos mata um pouco todo dia. Gente, bicho, água, planta, pedra, pau. O mar. Uma mistura una. Universo que resiste. Insiste em manter-nos ar. Força de idas e vindas. Vida! Ondas de amar. Deuses e deusas de nós. Um socorro. Do que nos apavora. Do que nos pertence enquanto estamos nesse agora.  

Não me chamem para banho de mar. O mergulho está indefinido, água turva. Coração acelera a cada tentativa de submergir. Estamos alheios, às escuras. Olhos nos óleos, e vice-versa. Há morte de bicho, de alma. Ameaças à gente. Repito: o que nos cura, agora também nos fere.

Faz sangrar. Arma silenciosa. Um grito de alerta. Muitas vozes. Muitos heróis. Um amparo que não chega. Ou tarde demais.  

Não me chamem para banho de mar. O tempo só passa, socorro tarda. E falha. A brisa tem sido a nossa esperança de levar para longe o que não nos convém. A história já não sei mais contar. Horizonte infinito, perdido. Barcos à vela, de mim, de tantos nós.

À deriva da minha memória. Não encontro mais as ondas, tentam arrancar de si as manchas, as marcas, que sagram (feito feridas ainda abertas). E nossas respostas?  

A única certeza agora é medo - mas nunca do mar. Onda nenhuma nos leva pra longe, a todo instante estamos perto demais.

Contemplamos daqui e dali o que aqui nos chega.  Já chega! Há uma gente que insiste em arrancar pedados do oceano, como se possível fosse limpar, libertar nosso abrigo. Nossa própria salvação.  

Não me chamem para banho de mar. Aqui já estou. Submersa. Afogada. Paro, respiro. Uma oração, um mergulho. Nossas palavras ora são gritos, ora são lágrimas. Nada de guerra. Prece, depressa. Nossa oferenda é dar ao oceano todas as curas que já nos chegaram do fundo desse monte de (a)mar.