Meghan e Harry quebraram [também] nossas próprias correntes?

Essa história real é a verdadeira metáfora da vida, das nossas histórias, das memórias que estamos construindo nesse século, para o porvir

Megan and Harry
Foto: Reprodução Instagram - @sussexroyal

 

Noite de segunda-feira. Férias escolares. A afilhada de 7 anos deita no meu sofá e assiste concentradíssima as cenas de um desenho animado e, em meio a conversas entre mulheres adultas, ela responde, de pronto, a uma delas que dizia não estar entendendo direito aquele filme de princesa: “essa princesa aí quer ser livre, tia. Ser livre! Entendeu agora?”  

Tarde de quarta-feira, do lado de lá do oceano, o príncipe Harry e sua esposa, a atriz Meghan Markle, anunciam oficialmente, aos quatro ventos, por meio de suas redes sociais, as renúncias de seus cargos de membros seniores na família real inglesa. Nem tão novidade assim para quem os acompanha de perto, mas surpreendente para o mundo.

Se o mundo, as pessoas, as paisagens tanto se transformaram nas últimas décadas, desde as últimas gerações mudaram também alguns dos contos de fadas que permeiam nosso imaginário, transformaram-se ainda os nossos desejos, sonhos, conquistas. Será?

Nós mudamos, o mundo mudou ou será que sempre fomos príncipes e princesas de nós mesmos, dos nossos próprios reinados em busca da nossa liberdade e fadados a sermos inseridos no tão clichê “felizes para sempre dos contos de fadas”? Em busca de amor? E o amor? Liberta? Amor a quê, a quem? A nós mesmo, então? Quem sabe?  

Não sabemos ao certo essas tantas respostas. No entanto, sabemos bem das correntes que nos aprisionam. Mas e aos outros? Quem sabe? Quem se importa? Muitas vezes, corpos libertos estão cheios de amarras. O que me prende, te solta? O que te liberta, aprisiona-me em corpo, mente alma. Nossos sonhos são, inúmeras vezes, as nossas desculpas. Os sonhos alheios, a saída.  

Montamos nossos altares para, enfim, ultrapassarmos os obstáculos interiores, as normas do mundo. Há regras sem fim. Quem as segue, se perde? Talvez. Quando a notícia do rompimento de Meghan e Harry com a tradição da família real britânica tão logo se espalhou, houve bagunça de informações entre redes sociais, pessoas, mundos, entre nossos imaginários. Essa história real é a verdadeira metáfora da vida, das nossas histórias, das memórias que estamos construindo nesse século, para o porvir. Reflete ainda a resposta da afilhada sobre a liberdade?

Estamos tão atarefados, cheios de informação, lotados de sentimentos e sensações os quais mal damos conta de entender porque há sempre o que fazer, sentir, pensar.

Aprisionados pelo tempo, o dos outros, principalmente. Então, nossas escolhas correm o risco de ficarem para trás, nossas histórias correm o risco de serem escritas, vividas por terceiros, quartos, quintos...  o maior risco de todos: o de estarmos livres por fora, mas totalmente aprisionados, entre as conquistas que os outros querem para nós.  

Mais uma vez, quando vemos a quebra de uma tradição, a desconstrução de modelos, de imaginários parece ser o momento de uma parada súbita a tempo, de questionarmos a nós mesmos, aos outros, a quem nos rodeia. Tempo de encorajar uns aos outros. Porque romper é uma decisão que acontece por amor (e/ou dor). E não é necessariamente ao amor romântico que aprendemos nos contos de fadas – aqueles mais antigos mesmos. É amor ao que faz sentido nas nossas vidas.  

É nossa a vitória quando buscamos por dentro e por fora – e encontramos – as respostas sobre o que realmente faz sentido nas nossas vidas. Não o sentido imposto por gente, instituições, cenários. Não o sentido que liberta os outros. É preciso buscar o sentido que liberta o nosso próprio interior. Porque, repito: o que te liberta, pode muito bem me aprisionar. E vice e versa!

E a liberdade é de quê, para o quê? A história real de Meghan e Harry está totalmente ligada aos nossos imaginários, às nossas histórias de vida – sonhos versus realidade. Mas por que não sonhos + realidade? E nos deixa – que bom! – uma questão totalmente coletiva: nessa infinita disputa entre poderes, pessoas, narrativas e cenários, Meghan e Harry quebraram também nossas correntes?