Isso é coisa de criança?

Desde cedo, aprendi a disciplina da alma: baguncei? Vou lá e conserto, seja alma ou coração.

Amanheço atordoada procurando em mim as cicatrizes guardadas. Acordei. Estou de pé. De pele em pele, saio a procura das marcas que me fizeram rainha da minha travessia. Desde a infância, sempre fui dona de mim. Autônoma. Criança solitária, que gastava tempo com coisa de adulta. Hoje, não ando só. Guio-me pela (minha) voz (infantil) que ainda ouço gargalhar inquieta.

Minhas memórias de infância são as mais maduras da vida toda. Hoje, tenho saudade da rapidez com a qual eu resolvia os dilemas criados aqui mesmo, dentro de mim.

Desde cedo, aprendi a disciplina da alma: eu baguncei? Vou lá e conserto. Seja alma, seja coração. Fiz isso no primeiro amor, na dor. Nas cólicas sem fim. Na saudade desgraçada que sentia da escola. Na vontade desmedida de comer um misto quente com suco de laranja na cantina do coleginho do bairro.

Idas e vindas dentro de mim e tudo estava resolvido. O que eu não tinha, não me pertencia. Muitas vezes doía, claro! Mas, como toda criança em essência, sempre segui. Naquele tempo, eu era “good vibes” e não sabia!

Apesar de tudo, ser criança é muito fácil. A gente tem pressa demais. Então, a gente se revolve logo por dentro pra dar tempo brincar também. Mas engana-se (ou engana-nos) quem acha/diz que criança não tem dilemas. Tem sim! Incontáveis. O drama dos pais, a disputa pelo controle remoto da televisão. A eterna travessia entre a sessão infantil e a infanto-juvenil - uma roupa não entra, a outra é frouxa demais; aquela fase infeliz do videogame que a gente não encontra o segredo pra ultrapassar (ufa! tarde demais encontrei. Hoje, vejo que deu certo seguir mais tempo desfrutando das surpresas do Master Sister 3).

Perdi-me entre memórias...pois bem.

Cá estou a cutucar a criança viva em mim. Ainda pulsa. Todos os dias. Aconselha-me. Atrapalha-me. Atravessa-me constantemente. É a minha melhor companhia.

Muitas das minhas respostas pra quem eu sou. Onde estou ? Agora, chorar não adianta muito. Nunca duvidei. Pouco chorei quando criança porque eu era muito atarefada com os meus próprios pensamentos. Cabeça grande, coração agitado. Alma inquieta. Poucas palavras. Muitos gritos no peito. Brilho nos olhos.

Se esses devaneios/memórias são coisa de criança, não sei. O que aprendi é que a criança guardada no peito desmonta-nos a cada instante para relembrar que alma não tem tamanho. Mistura maturidade e criancice entre uma e outra escolha de vida. E mesmo quando a gente pensa que cresceu, se descobre revirando na cabeça as fantasias, e ainda se surpreende com o óbvio, porque não temos resposta pra tudo. Não? E isso é coisa de criança ? Eu não sei ...