Cadastro positivo: ficar ou não na lista de bons pagadores?

Manter dados voluntariamente promete benefícios, mas assédio das empresas pode dissolver vantagens

Cadastro Positivo LGPD

Dados de milhares de cearenses poderão ser consultados por instituições financeiras, comerciantes e demais empresas a partir desta quarta-feira (15), quando os chamados birôs de crédito (SPC, Serasa, Boa Vista e Quod) disponibilizaram o acesso às informações de cada consumidor.  Eis que o Cadastro Positivo passa a vigorar no País.  

Mas o quanto isso é interessante para o consumidor? Tudo vai depender do relacionamento com as empresas.
 

Muitos bancos varejistas, por exemplo, valorizam mais a relação com o cliente do que indicadores como salário, nome sujo na praça ou score de crédito. Isso porque o interesse deles é a fidelização. Ou seja: mesmo observando o salário baixo ou a pouca movimentação da conta, o objetivo é ter o consumidor como cliente em potencial para outros serviços, como seguros, empréstimos e financiamentos.

R$ 29 bilhões
A promessa é que R$ 29 bilhões sejam movimentados somente no Ceará a partir do Cadastro Positivo. O montante considera as futuras compras, como também o maior acesso do consumidor ao crédito - feito ainda não alcançado após as sucessivas reduções da taxa básica de juros.

Já quando a relação é construída com os varejistas, muda um pouco, mas a lógica é a mesma: eles estão interessados que os clientes comprem mais, e só comprem com eles. Para isso, as ofertas e promoções devem ser ainda mais direcionadas, pois os algoritmos terão ajuda de dados precisos sobre o comportamento do consumidor. 

A partir de hoje, segundo informou o SPC, o mercado poderá consultar cinco tipos de informações:  

  • Score de crédito do consumidor (pontuação utilizada pelas empresas para avaliar a probabilidade de pagamento);  
  • Índice de pontualidade de pagamento,  
  • Índice de comportamento de gastos e índice de consultas que o CPF do consumidor tem por segmento de empresas.  
  • Também haverá a possibilidade de a empresa credora acessar o histórico consolidado de compromissos financeiros assumidos pelo consumidor, como valores e datas de pagamento das faturas de cartão de crédito, crediário, financiamentos e empréstimos – desde que haja consentimento do próprio consumidor. 

Alertas 

Óbvio que, de posse de mais informações financeiras sobre a pessoa, haverá mais critérios para conceder qualquer vantagem e também mais chances de invasão de privacidade. 

Este é o alerta que órgãos de defesa do consumidor vem fazendo há meses. Afinal, o Cadastro Positivo entra em vigor antes da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), o que é interpretado como incoerência por Procons, Decons e OAB em todo o País. 

A LGPD é outro conjunto de regras desconhecido pela maioria dos brasileiros. Elaborada para, entre outros objetivos, resguardar o consumidor na relação moderna de consumo, a Lei só deve entrar em vigor no meio do ano. Até lá, os nomes de todos os brasileiros entraram para o Cadastro Positivo involuntariamente... 

Sem a devida proteção apontada pelos órgãos, o consumidor precisa avaliar seus objetivos com bancos, lojas e demais empresas com as quais possui alguma relação e decidir se, para obter empréstimos, financiamentos e crédito, vale a pena ter informações tão íntimas nas mãos deles.