Série 'Cobra Kai' retoma com sucesso o legado de 'Karatê Kid'

Visualmente bacana, com humor na medida e uma trilha sonora encaixada, a série espelha-se em ser relevante ao presente

Série investe em temas atemporais como amizade, lealdade, ética e educação
Legenda: Johnny Lawrence x Daniel La Russo. Série investe em temas atemporais como amizade, lealdade, ética e educação
Foto: Divulgação

Na expectativa de garantir um trocado certo, revisitar franquias de sucesso continua sendo uma estratégia inesgotável do setor de entretenimento. A onda saudosista atende por diferentes nomenclaturas. Sem demorar demais nos significados e abordagens de cada termo, falamos dos tais “remakes”, “reboots”, “spin-offs”.... 

Alcançar a qualidade do original, no entanto, nem sempre é certeza quando se requenta uma história antiga. Para cada êxito de um “Mad Max: Estrada da Fúria” (2015) temos 217 refilmagens do Batman. O mundo realmente precisava de um novo Blade Runner? O cheiro de naftalina sobe e lá vem o Tom Cruise correndo com outro “Top Gun”.  

Querendo abocanhar seu espaço nos serviços de streaming, a turma do YouTube Red anunciou um projeto ambicioso ainda em 2017. O universo de “Karatê Kid - A Hora da Verdade” (1984) voltaria no formato de série. Outro fator de peso. Os atores Ralph Macchio e William Zabka reprisariam os populares antagonistas da produção oitentista, respectivamente Daniel La Russo e Johnny Lawrence. Santa responsabilidade. 

“Cobra Kai” ganhou duas temporadas. Em junho de 2020, a Netflix adquiriu os direitos do material e já confirmou que uma terceira sequência deve chegar em breve. A dança das cadeiras foi benéfica e a série atingiu um público bem mais diverso. Desde o fim de agosto, da plataforma, é uma das produções com maior audiência no Brasil.  

Os números só confirmam o quanto “Cobra Kai” é uma feliz surpresa nesse mar de refilmagens e continuações. A trama se passa três décadas depois do primeiro filme. Somos apresentados ao atual cotidiano de Johnny Lawrence. Diferente do playboy treteiro dos anos 1980, o cara segue na pior e sobrevive de alguns bicos como faz tudo. Solitário, enche a cara todos os dias e vive se remoendo pela amarga derrota no torneio de karatê.  

Para completar o martírio, o antigo desafeto é um bem-sucedido homem de negócios local. Lawrence decide retomar a vida reabrindo o dojo Cobra Kai e a ação tem efeito imediato. Fantasmas do passado também voltam a fustigar Daniel La Russo e a rivalidade da dupla ressurge. Dessa vez, “Daniel San” não conta com os ensinamentos de seu mentor, o querido Sr. Miyagi (Pat Morita).  

Feridas 

Leve e despretensiosa, “Cobra Kai” aprofunda a jornada destes rivais. Com equilíbrio, dialoga com os fãs mais antigos e mira as novas gerações. Ironicamente, o primeiro aluno do Cobra Kai é um adolescente que sofre bullying na escola. Essa inversão de perspectivas nos traz o jovem Miguel Diaz (Xolo Maridueña). Sem pai, filho de uma imigrante, o menino será responsável por abrir outros horizontes na existência de Lawrence. 

A mente do sujeito continua encapsulada nos anos 1980. Lawrence consome filmes, música e até guia um carro da época. Continuar preso à juventude, instante em que tinha dinheiro e alguma relevância, tornou-se um subterfúgio. Perdido nessa “zona de conforto”, ele guarda dificuldades de se conectar com o presente.  

É cativante essa busca por redenção. Ao longo dos episódios descobrimos a origem de tanta agressividade e ressentimento. “Cobra Kai”, no entanto, não quer justificar os atos pregressos de Lawrence. Interessa a reflexão e se permitir observar os acontecimentos a partir de outros prismas. Na ótica de Lawrence, por exemplo, Daniel foi e continua o grande vilão da história.  

Superar as dores, reconhecer os equívocos e levantar a cabeça. A saga de “Cobra Kai” nos explica o quanto é maléfico nutrir feridas antigas. Guardar ódio e vingança nos coloca num estado de torpor e só gera sofrimento a quem está próximo. Não à toa, Lawrence nunca assumiu verdadeiramente a paternidade do filho, Tanner Buchanan (Robby Keene). 

Por sua vez, vale destacar, este remorso não é exclusividade do novo dono do Cobra Kai. Daniel San, mesmo rico e pai de uma família perfeita ainda alimenta velhos traumas. A luta por equilíbrio é um desafio constante à dupla. Os dois marmanjos vão descobrir que suas atitudes tem peso na influência dos jovens alunos.  

O que faz uma continuação (“remakes”, “reboots”, “spin-offs”) ser um sucesso não é sua ligação pura e simples com o passado. No caso de “Cobra Kai”, os elogios à obra são, também, por seu desejo de discutir o contemporâneo. Visualmente bacana, com humor na medida e uma trilha sonora encaixada, a série espelha-se em ser relevante ao presente.  



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