O resgate da ‘Mulher Rendeira’ foi alento em dias de horror

O arte-educador cearense José Viana evitou o destino trágico da escultura

Mulher Rendeira
Legenda: Parte da obra "Mulher Rendeira" nas mãos do professor José Viana, ainda em Fortaleza, na última terça-feira (2)
Foto: Natinho Rodrigues

As populares "lendas urbanas" costumam creditar eventos maléficos a carros. Tais veículos costumam tocar o terror e apavorar a criançada. Dessa frota imaginativa, os modelos Kombi costumam desfilar vez ou outra nessas historietas. Curiosamente, em meio à pandemia da Covid-19, os carangos que assustaram a população foram outros.

Por sua vez, quem deu exemplo de altruísmo e humanidade foi o dono de uma Kombi.

A quarentena eclodiu sentimentos obscuros de uns e outros por Fortaleza. Uma turminha fez carretas exigindo o fim do isolamento social. Estes condutores optaram por declarar seu irrestrito apoio ao vírus. Ligaram os motores e pé na tábua. No ruge-ruge das redes sociais, o apelido "carreatas da morte" foi até comum.

A definição ácida me fez lembrar do filme "Corrida da Morte - Ano 2000" (1975). Num futuro distópico, pilotos integram uma competição na qual vence quem matar mais. A ideia é sair atropelando geral e a disputa envolve uma tabela de pontuação. Ganha o mais brutal. Que visão amarga dos anos 2000, hein?

Felizmente, isso é coisa de cinema. Cito até a famosa frase. “Esta é uma obra de ficção, qualquer semelhança com nomes, pessoas, factos ou situações da vida real terá sido mera coincidência”.

Nem só de turbas equivocadas vive o asfalto da capital cearense. Distante dos carrões último modelo que reinaram nos protestos citados acima, quem realmente salvou o dia foi o cara no volante de uma singela e eficiente Kombi. 

Aos 39 anos, o arte-educador cearense José Viana evitou que escultura "Mulher Rendeira" fosse para o lixo.

A obra estava desde 1966 no jardim de uma agência do Banco do Brasil. Foi derrubada a marretadas. Ficava na esquina da Duque de Caxias e Barão do Rio Branco. De frente à Igreja do Carmo. Ao lado do que um dia foi o bar "Duques e Barões". Esse, espaço de um histórico conflito entre bangers e punks nos anos 1980.

Calé Alencar foi uma das vozes a denunciar a destruição. Inúmeros cearenses se mobilizaram pela internet. Viana soube do desaparecimento e correu até o local. O carinho pela estátua criada pelo pernambucano Corbiniano Lins (1924-2018) remonta aos tempos de labuta como office boy pelo Centro. 

A empresa Artflex Engenharia é responsável pela reforma na fachada da agência. Viana reuniu os pedaços com ajuda dos operários. Guardou em casa. No dia primeiro de julho dividiu nota descrevendo o processo socorro. É dele a misteriosa Kombi que recolheu a rendeira. 

Hoje, as partes da "Mulher Rendeira" estão em Recife, sob a guarda da família do escultor. 

Chico Lins, filho do artista, é restaurador e segue à frente do trabalho de reconstrução. Vinte e três anos depois, o reencontro com a "rendeira" correu longe do ideal. A entrevista concedida à colega Roberta Souza é comovente. Chico era criança. Seu pai reuniu a família e decidiu rodar o Nordeste para lhes apresentar seus feitos artísticos. Um momento de muito orgulho, confessa o filho. 

A passagem por Fortaleza aponta o ano de 1997. No Ceará visitaram as obras "Iracema" e "Monumento ao Vaqueiro", ambas datadas de 1965. A primeira é bastante tradicional e fica pela Beira Mar. Mais distante do Centro, em frente ao antigo Aeroporto (Praça Brigadeiro Eduardo Gomes) consta a do "Vaqueiro". No depoimento de Chico, a última a ser encontrada pela família foi justamente a da "Rendeira".

O gesto heroico de Viana amenizou uma situação que tinha tudo para ser trágica.

Não é a primeira vez que uma escultura de Corbiniano Lins é ameaçada, nos conta a publicação "O artista Zenon Barreto e a arte pública na cidade de Fortaleza". A autoria é da pesquisadora e jornalista Sabrina Albuquerque de Araújo Costa. Leitura das boas. 

Em outubro de 1965, três meses depois de inaugurada, a estátua "Iracema" foi vítima de vandalismo. "Quebraram a flecha e um dos seios da virgem", relata notícia da época. Dentre outros aspectos históricos e arquitetônicos que gravitam a obra, o estudo de Sabrina Albuquerque de Araújo Costa resgata que a cria de Corbiniano incomodou os "conservadores" da época. 

Para tanto, a autora recorre a citação do jornalista e escritor pernambucano, Homero Fonseca. Ele estava pela capital cearense naquele momento. A “modernidade” da obra causou pânico. “Tinha a cintura nos peitos e os peitos no pescoço”, depreciavam os carolas de plantão.

O escultor entregou uma arte condizente com suas criações. "Definitivamente, a intenção de Corbiniano não era exaltar a beleza da virgem dos lábios de mel. Acreditamos que o artista queria apresentar uma Iracema de acordo com a estética modernista, que, por sua vez, tinha a estilização como um de seus principais recursos", divide a pesquisa.

Era uma produção bem diferente para quem esperava uma estátua "próxima" do real.

Sabe a "Iracema" que recentemente foi erguida na Lagoa da Messejana, cujo projeto foi baseado no corpo de uma cearense que era ex-BBB? Então. Pelo que li, CL (como o artista costumava assinar) jamais faria aquela ideia. Em 1965, seu interesse era valorizar a figura guerreira da índia. O respeito ao feminino é algo inerente em seu universo.

Ao Laboratório de História Oral e da Imagem (Lahoi) do Departamento de História da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Corbiniano Lins explicou a origem de seu princípio estético. Nele, a mulher é fundamental à construção de suas linhas.

"Sou descendente direto de escravos de Itamaracá. Tudo que eu tenho é esse meu conviver com essas mulheres. Meu pai, quando ele morreu, eu tinha oito meses. Mas, essas mulheres que eram minha avó, minhas tias, tudo que eu tenho devo a essa convivência. A casa dela em Olinda era um ateliê de costura e bordado", contou em 2016.

Atento à memória de Fortaleza, o historiador Lucas Junior realiza grande serviço de informação via documentos guardados no acervo. Não foi diferente na semana em que a derrubada da "Rendeira" ganhou eco. Um recorte de jornal de 1972 veio à tona por ele. 

"O vereador João Quariguasi Frota (Arena) requereu a sua demolição, alegando que o Mucuripe merecia homenagem ao jangadeiro e não à obra de Alencar. Note que já se encontrava deteriorada", descreveu o estudioso.

A valente Iracema de Corbiniano incomodava. Resta acompanhar os desdobramentos do caso da “Rendeira”

O pintor Daniel Chastinet traduziu o feito de José Viana em tintas. Ele presenteou o cara, um dos salvadores da "Rendeira" com a tela "Presença de Espírito". Considero batismo dos mais justos. Diante da incivilidade e apego ao horror que desfilou nas avenidas de Fortaleza, nem a melhor “lenda urbana” seria capaz de prever que uma Kombi traria as boas novas.

As semelhanças entre "Corrida da Morte - Ano 2000" e as "carreatas da morte" ficam apenas nos títulos. Em 2020, na vida real, ninguém saiu de casa para atropelar o próximo. É desonesto comparar as tramas, longe de mim.

Pilotos caçarem pessoas no intuito de vencer uma tétrica competição jamais será equivalente a alguém usar seu veículo para protestar. Mesmo que a "carreata" defenda um vírus assassino.