'Star Wars: A Ascensão Skywalker' encerra nova trilogia de forma decepcionante

Filme dirigido por J.J. Abrams até tenta remendar os erros do filme anterior, mas esbarra numa produção preguiçosa e superficial

Em cartaz nos cinemas brasileiros, “Star Wars: A Ascensão Skywalker” representa o fim de toda uma era. Fenômeno cultural ao longo de quatro décadas, o universo cinematográfico de Star Wars arregimentou couraça semelhante à da devoção religiosa. É marca reconhecida nos mais distantes cantos do Planeta e expressão repassada de pais para filhos. Ofertando doses cavalares de escapismo e mensagens de esperança, a cria máxima de George Lucas virou febre naquele Estados Unidos do fim dos anos 1970.

Star Wars: A Ascensão Skywalker
Mistérios e pontas soltas são resolvidos sem qualquer brilho Divulgação

Fomos apresentados a Luke Skywalker, um simples fazendeiro munido de sonhos e angústias. Ele anseia por abandonar a vidinha mequetrefe ao lado dos tios e protagonizar aventuras pela galáxia. O desejo por voos intrépidos e felizes firmou as bases dramáticas daquela ópera espacial. A caminhada do jovem vivido por Mark Hamill, alçado de completo "zé ninguém" ao status de herói foi o recurso narrativo necessário para o público adentrar todo aquele universo mágico. 

No embate entre o bem e o mal conhecemos criaturas exóticas e uma brava princesa em perigo. Topamos com o mestre Obi-Wan Kenobi e um Império materializado na frieza robótica do cavaleiro negro Darth Vader. Lutas espaciais trouxeram um contrabandista falastrão e seu inseparável parceiro de trabalho. O que dizer da querida dupla R2D2 e C3PO?

Expandimos a mente no infinito daquele espaço. A primeira trilogia, concluída em 1983, moldou o cinema e o entretenimento dos dias atuais. Da venda de bugigangas à efetivação do "modelo blockbuster" de consumo nas telonas. A cultura nerd sedimentou raízes no amor por ciência, tecnologia e literatura fantástica. Games, livros, desenhos animados e HQs alimentaram "Guerra nas Estrelas" para além dos filmes.

Já no fim do milênio, Lucas voltou ao batente com a ideia fixa de contar a origem de Anakin Skywalker em uma nova trilogia. No sentido inverso dos primeiros filmes, nos quais a busca de Luke era o foco, teríamos a chance de conhecer uma trajetória de glória e desgraça. O resultado dos três trabalhos foi precário, mas responsável por reaquecer o interesse das plateias na franquia.

Nova Esperança

A Disney abocanhou os direitos do criador original e um novo horizonte irrompeu nos trilhos da saga. Eficiente em trabalhar com a nostalgia, o diretor J.J. Abrams entregou “Star Wars: O Despertar da Força” (2015). Situados anos depois da queda do Império, o trabalho mexeu com a imaginação dos fãs por resgatar os estimados Han Solo (Harrison Ford), Leia (Carrie Fisher) e Luke (Mark Hamill). O trio clássico uniu-se a uma nova turminha pontuada por Rey (Daisy Ridley), Kylo Ren (Adam Driver), Finn (John Boyega) e Poe Dameron (Oscar Isaac). 

Star Wars: A Ascensão Skywalker
Rey e Ren: Muito papo e pouco sucesso Divulgação

O entusiasmo ganhou maiores proporções com a chegada aos cinemas de “Rogue One: Uma História Star Wars” (2016). A história independente, mais seca e ligada aos efeitos da guerra entre os seres anônimos da “galáxia muito, muito distante” foi só elogios. Em plena era de renascimento dos super heróis nos cinemas, liderada no duelo entre Marvel e DC, Star Wars restabelecia a relevância na estante da cultura pop.  

Os bons ventos mudaram de lado após o confuso “Star Wars: Os Últimos Jedi” (2017) e o esquecível “Han Solo: Uma História Star Wars” (2018). Chegamos a 2019. O peso nas costas do recente “Star Wars: A Ascensão Skywalker” é dos mais severos. J.J. Abrams voltou ao leme com a missão de solucionar as muitas pontas frouxas do filme anterior e concluir o sonho desenvolvido por Lucas em 1977. 

Saudades do Jar Jar

Comparado a “O Despertar da Força”, o resultado do trabalho de 2019 é inferior. O último capítulo da terceira trilogia decepciona. J.J. Abrams atingiu a façanha de estabelecer um filme sem rosto. Um borrão costurado no vaivém de naves, reviravoltas insossas, subtramas descartáveis e novos personagens sem qualquer rastro de relevância. 

O roteiro assinado por quatro realizadores (Chris Terrio, Derek Connolly, Colin Trevorrow e J.J. Abrams) busca investir no ritmo de ação desenfreado. “A Ascensão Skywalker” começa no máximo e logo de cara entrega a presença de uma antiga ameaça. Como não é segredo algum por conta dos trailers, sabemos que o nefasto Imperador (morto em "O Retorno de Jedi") tá novamente na área.

O retorno de Palpatine pode representar o fim da resistência e dos poucos focos de democracia naquele universo. Rey precisa eliminar o novo (velho) inimigo a todo custo. Kylo Ren, por sua vez, guarda outros interesses e reaparece na companhia dos aguardados Cavaleiros de Ren.  

star wars
Finn (John Boyega) e Jannah (Naomi Ackie) protagonizam confusas cenas de ação Divulgação

A dupla, Rey e Ren, prossegue na lenga-lenga vista em “Os Últimos Jedi”. Aquele papo de fio telefônico por meio da força. Os dois conversam, brigam e voltam à estaca zero. Situação recorrente durante as 2h 21 min de filme (parece uma eternidade). Finn involui ao estágio máximo de figura mais sem propósito de todos os Star Wars (até Jar Jar Binks chegou a algum lugar) e Poe continua o piloto sagaz, porém desprovido de qualquer carisma.

Figuras clássicas da primeira trilogia são jogadas durante a trama. A Leia de Carrie Fisher (1956–2016) é protocolar, afinal, a morte da atriz complicou o andamento das gravações. Billy Dee Williams veste novamente o manto de Lando Calrissian e pouco lembramos de sua participação na subida dos créditos finais.

Mau pressentimento

J.J. Abrams requenta um angu frio e sem gosto. “Star Wars: A Ascensão Skywalker” é um exemplo luminoso de preguiça e planejamento equivocado. É ruim? Pouco interessa. Relevante? De forma alguma. Tem mensagem de esperança? Sim. Ela é melosa, brega e pouco reflexiva? Talvez. O vazio deixado pelo nono filme da franquia alimenta o desinteresse de assistir novas desventuras da turma liderada por Rey. Ao tentar solucionar todos os eventos e mistérios de três filmes num só, o diretor nos empurra uma trama irritada e digna de uma novelinha das seis. Só faltou alguém grávida.

A atual trilogia acertou ao permitir uma heroína assumir o papel central das ações. Rey certamente caiu no gosto de muitas garotas apaixonadas pela série de filmes Star Wars. É positivo ver a Disney discutir o tema da representatividade justamente na peça artística considerada o “santo graal” do chorume nerd. Entretanto, o fez arranhando somente a superfície. 

Billy Dee Williams</strong> veste novamente o manto de <strong>Lando Calrissian
Billy Dee Williams e seu pouco aproveitado Lando Calrissian Divulgação

Desconfiar da obra realizada em 2019 vai além da pura nostalgia. Apontar um filme como bom ou lixo independe do ano no qual foi produzido. Alguns podem até envelhecer mal, quando revistos à luz de outro tempo. Totalmente aceitável. No caso de Star Wars, por sua vez, existe todo uma linha narrativa própria. É um organismo complexo, particular e em expansão. Enquanto religião pop possui seus ritos e mecanismos de adoração intocáveis. 

Os engravatados da indústria cinematográfica são espertos, mas pouco preocupados com qualidade. Outras obras devem sair da linha de produção mantida pelo Mickey Mouse. Que a força esteja com os fãs.