E no meio do caminho tinha um nazista

Ou como a Viúva Porcina promete resolver o dilema da guerra cultural brazuca

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"Mein Führer, I can walk!" Divulgação

Existiu um diretor de cinema chamado Stanley Kubrick (1928-1999). Genial e genioso são termos comumente associados ao sujeito. Outra notória situação envolve o cara. Basta notar as diferentes reações quando o nome do criador de "2001 - Uma Odisseia no Espaço" (1968), "Laranja Mecânica" (1971) e "O Iluminado" (1980) é citado em qualquer roda de conversa. 

Para alguns, equivale à soberba, arroto de gente gabola. Já do outro lado do ringue, rola uma historinha de endeusamento do artista. Do confronto de posicionamentos, fica o saldo de mais uma dor de cabeça desnecessária. Assunto de quem costuma andar de barriga cheia.

Auxiliado no rigor da moda da máscara isentona, aproveito uma obra do finado cineasta para traçar uns paralelos com os recentes episódios políticos desse menino chamado Brasil. Atônitos, boquiabertos, parte da população chorou lágrimas de sangue por descobrir a existência de um militante nazista no seio do Governo Federal.

Falamos de Roberto Alvim. Deposto do cargo de "secretário Especial da Cultura", o ex-dramaturgo, homem curado de um câncer pelo altissímo (segundo ele mesmo) entregou a grande performance teatral da vida. Emulou em vídeo (com direito a cenário e trilha sonora) o desprezível Joseph Goebbels (1897-1945). Vale tudo nessa guerra cultural contra a dita "arte degenerada".

A miséria dos conflitos bélicos e a mutilação do homem diante da bárbarie são assuntos recorrentes na filmografia de Kubrick. "Glória Feita de Sangue" (1957) e "Nascido para Matar" (1987) são algumas das peças mais evidentes desse xadrez. Uma, em especial, bate perfeitamente no coração da nossa Berlim Tropical. 

É o filme "Dr. Fantástico" (1964). Estrelado por George C. Scott (1927–1999), Sterling Hayden (1916–1986) e um inspirado Peter Sellers (1925-1980), a comédia devassa o clima de paranoia reinante naqueles tempos de Guerra Fria. 

Como aprendi a parar de me preocupar... 

Noiado até à tampa, o General Jack D. Ripper (Hayden) acredita fielmente que uma conspiração comunista joga flúor nas águas americanas. Totalmente fora de si, ordena um ataque nuclear à então União Soviética. Detalhe, a única forma de cancelar a bomba é usando uma senha que só o próprio General conhece.

O presidente Merkin Muffley (Sellers), dos EUA, até tenta resolver a presepada ligando para o líder russo. A ideia é abater os aviões americanos antes do bombardeio. Para piorar a situação, descobrimos que os vermelhos construíram a máquina do Juízo Final. Ela é disparada automaticamente caso uma bomba sequer caia em chão soviético. Diante do iminente fim do mundo, entra em cena o Dr. Fantástico do título. Militares escutam atentamente as ideias do cientista e especialista em armas nucleares.

A sugestão da criatura é selecionar um seleto grupo de pessoas "repletas de habilidades" para viver em um bunker por 100 anos. Para fins reprodutivos, dez mulheres deveriam ser reservadas para cada homem. A misteriosa figura interpretada por Sellers transpira sádico prazer ao criar cada uma destas orientações. Curiosamente, o braço direito do sujeito teima em levantar. O Doutor resiste em não se entregar. Tenta a todo custo não deixar a saudação nazi escapar.  

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A mão direita teima em levantar Divulgação

A sátira de Kubrick golpeia sem dó a relação entre a libido masculina e violência. Ri do desejo fálico inerente à devoção por armas e bombas. A nuvem de sexo (masculinizada) segue em cada detalhe da narrativa. Seja na alusão do General Jack D. Ripper à "Jack, o Estripador" ou na cena de aviões copulando em pleno ar. O furor do General Turgidson (C. Scott) guarda ecos semelhantes ao texano maluco que monta na bomba atômica como se estivesse sobre num garanhão. 

E passei a amar a bomba

Em comum, da Guerra Fria de Kubrick para a guerra cultural da era Bolsonaro, temos no meio do caminho um nazista. No caso nacional, mais de um, obviamente. A comédia imaginada no anos 1960 segue necessária por criticar uma cafonice (e pilantragem) ainda reinante nos dias atuais. Os atuais representantes do povo combatem inimigos imaginários. Se cercam de teorias conspiratórias. Alimentam o ódio. Veneram armas enquanto solução para medos e recalques.

Roberto Alvim e Dr. Fantástico guardam semelhanças e a ironia de Kubrick explica a comparação. O brilhante personagem de Sellers se veste, fala, olha e se comporta como um nazista. Porém, nenhum dos militares ou políticos ao redor dele sequer nota ou quer se incomodar. O único gesto que entregaria o papo torto do Dr. Fantástico é o braço direito que ele segura a todo custo.

2020. Alvim também falou, se vestiu, olhou e se comportou como um adorador do Terceiro Reich. Porém, ao reproduzir o texto do Goebbels deixou a mãozinha direita subir alto.

Coberta de razão, parte da comunidade judaica brasileira bateu pé e exigiu a cabeça do "secretário especial de cultura". Curiosamente, meses antes das eleições presidencias de 2018 uma turminha (cerca de 300 pessoas) aplaudiu e soltou garagalhadas com Jair Bolsonaro no clube Hebraica do Rio de Janeiro. Na ocasião, o então presidenciável comparou quilombolas a animais: “Eu fui num quilombo. O afrodescendente mais leve lá pesava sete arrobas. Não fazem nada. Eu acho que nem para procriador ele serve mais".

No Brasil, desonestidade, falcatrua e um tiquinho assim de analfabetismo (obrigado, Fausto Fanti) impedem de identificar a persona e as intenções de um nazista. Mesmo sendo algo explícito, jogado na cara. Ser racista, homofóbico, explorador da religião e queimador de livros, por exemplo, não faz do cidadão um nazi. No máximo um homem de bem comprometido com a nação. 

A casa de Alvim caiu ao entregar demais a rapadura. Como as fronteiras entre delírio, ficção e realidade andam embaçadas por aqui, fiquemos atentos às reais intenções no ato do ex-dramaturgo. Entre dramas, distopias e chanchadas, a solução final contra a cultura pode até ser Regina "eu tenho medo" Duarte.

Já imagino Viúva Porcina adentrando o Planalto ao som de "We'll Meet Again", canção tocada nos minutos finais de Dr. Fantástico. "Nos encontraremos novamente. Não sei onde, não sei quando. Mas eu sei que nos encontraremos novamente em algum dia ensolarado. Continue sorrindo até o fim, assim como você sempre faz. Até que o céu azul afaste as nuvens escuras para longe".