Vina na Seleção do Brasileirão: o simbolismo por trás do feito inédito para o futebol cearense

A indicação do camisa 29 dá uma dimensão ainda maior ao acerto do Ceará em tê-lo feito permanecer. Tempos atrás, seria algo impensável. Era saída certa

Legenda: Vina fez grande Brasileirão atuando pelo Ceará
Foto: Camila Lima / SVM

A presença do meia Vina, do Ceará, na Seleção do Brasileirão feita pela CBF, que conta com votos de capitães, treinadores e jornalistas esportivos de todo o Brasil, é daqueles feitos dignos de olhar mais atencioso. A realização, inédita para o futebol cearense, é bastante merecida, diga-se. E carrega consigo um simbolismo histórico.

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Não, não é exagero. Jamais um atleta, vestindo a camisa de um clube alencarino, esteve entre os 11 melhores da Série A do Campeonato Brasileiro na escolha da CBF. Por si só, já é uma marca que merece o devido reconhecimento.

Os números reforçam os méritos. O camisa 29 anotou 13 gols e é também o líder de assistências da Série A, junto ao uruguaio Arrascaeta, do Flamengo. Ambos com nove passes para gols.

Além disso, Vina é também o segundo jogador da história, desde que a CBF criou a premiação, em 2005, a entrar na Seleção do Brasileirão atuando por um clube do Nordeste. Antes dele, somente o atacante Acosta, em 2007. Quando defendia o Náutico, o uruguaio anotou 19 gols.

É isso mesmo. Em 16 anos desde o início do prêmio, somente dois jogadores do futebol nordestino.

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Legenda: Atacante Acosta se destacou pelo Náutico em 2007
Foto: Divulgação

O que explica?

Há vários motivos para isto. Um deles chama atenção de imediato. É um desempenho que reflete a discrepância financeira, estrutural, de investimentos e perspectivas esportivas que sempre segregou o futebol nordestino. Há uma visão diferente. Quem se destaca aqui ainda precisa "se provar" em outro lugar.

A lógica é simples. É mais fácil se destacar atuando em um bom time. Bons times são mais facilmente formados por quem tem mais dinheiro. Historicamente, a maioria dos clubes nordestinos sempre precisou se virar com menos dinheiro.

No caso do Ceará (e também do Fortaleza), ainda teve a defasagem de anos fora do Clube dos 13, que durou de 1987 até 2011, estabelecendo uma divisão de cotas benéfica sempre aos mesmos times. O Bahia, por exemplo, integrava o grupo. A realidade foi esta por muito tempo.

Nova realidade

Mas a lógica financeira do futebol brasileiro está mudando. Como costuma dizer Rodrigo Capelo, jornalista especializado em negócios do esporte, repórter do Globoesporte.com e comentarista do SporTV, "as placas tectônicas do futebol brasileiro estão em movimento. É um processo lento e poucas pessoas enxergam, mas que já mostra seus sinais".

Em 2021, Cruzeiro, Botafogo, Vasco, Coritiba, Guarani e Goiás estarão na Série B.

Legenda: Elenco do Vasco, rebaixado à Série B
Foto: Rafael Ribeiro/Vasco

Méritos do Ceará

Na contra-mão, o Ceará consegue demonstrar força para fazer com que o seu principal jogador permaneça. Oferece um prazo longo de contrato, com salário e premiações atraentes, em uma engenharia financeira interessante e dentro da realidade. Faz porque pode fazer.

Legenda: O meia Vina, um dos melhores jogadores do Brasileirão, assinou contrato de renovação com o Ceará ao lado do presidente Robinson de Castro
Foto: Felipe Santos / cearasc.com

Tempos atrás, seria impensável o Alvinegro manter um destaque como foi o Vina nesta temporada. Era saída certa para algum time do eixo Sul/Sudeste. Hoje, não.

No Nordeste tem trabalhos sérios, sólidos, responsáveis, organizados e bem administrados. É a prova que é possível, sim, se destacar e ter visibilidade atuando por aqui. E que há muita coisa boa fora do eixo.

A presença de Vinícius na Seleção do Brasileirão é mais simbólica que parece.