Sansão

Ilustração para crônica de Ana Miranda  - Sansão

Todo mundo está preocupado com o Sansão. Ele anda triste, sente-se prisioneiro. Vive num pequeno espaço, passa umas dezesseis horas ali, confinado. Deve estar com o corpo amolecido por não se movimentar. Nos poucos momentos em que sai, é assediado por estranhos e pessoas barulhentas que batem as mãos no vidro que os separa. Ele tem tido comportamentos repetitivos, ou fica virado para a parede, demonstrando assim o seu estresse e a insatisfação.

Quando percebe a aproximação de uma pessoa conhecida, Sansão deixa seu café da manhã, vai para perto, tenta se comunicar, faz gestos, parece conversar. Sansão é português e tem 37 anos. Olhos fundos, melancólicos, pacientes. A boca larga parece que sorri com certa ironia. Os gestos são lentos. Quando fica irritado ele suga o ar, franze os lábios e faz um som de beijo. Adora figos, mas come folhas jovens, brotos, cascas, mel e ovos. Sansão precisa de cuidados, está provado que ele pode contrair o corona vírus. Ele é muito bonito, suas fotos e vídeos na internet são cativantes, enchem nosso coração de doçura e tristeza.

Ele sente solidão. Não tem mais seus dois companheiros. Amigos tentam conseguir que ele vá para um lugar mais amplo, um santuário cheio de jardins, brinquedos, águas, onde vive Kathai, ela será uma boa companhia para ele, e ele, para ela, que também vive sozinha. Lá, Sansão vai ter maior liberdade. Porém nunca será como seus antepassados.

Ele vive preso há anos e seu aprisionamento não tem motivo. Não cometeu nenhum crime. Foi preso apenas por ser um orangotango, para divertir as pessoas que o veem. Vive num lugar que já teve fascínio, mas hoje sabemos como traz sofrimento para seus habitantes: um zoológico. Sansão é quase humano, há apenas três por cento de diferença entre suas e nossas estruturas. Ele possui inteligência, emoções, relações sociais construídas. Sabe aprender. Nunca esqueço o gato que toca piano e o macaco que sabe dar nó. Nunca esqueço as falas da minha gata Filomena. Os animais sentem amor, amizade, inveja, vergonha, alegria, medo, saudades, têm noções do futuro, uns sabem se comunicar por sons, outros são capazes de imitar a voz humana; fazem complexas obras de arquitetura e engenharia, alguns são capazes de usar ferramentas; eles sonham ao dormir, e todos têm a capacidade de sofrer. Não apenas a dor física, mas também as dores da alma. Sim, bichos têm alma, como nós.

São Tomás de Aquino já dizia que os animais têm alma, mas não são almas imortais como as humanas. Dá para ver que Sansão tem alma, seus olhares são meditativos, parece estar pensando, na sua linguagem pessoal. Ele decerto sabe de seu próprio sofrimento, e nos diz com a expressão de seus olhos. Às vezes parece até mesmo que está rezando, se é que orangotangos acreditam em Deus. O islamismo afirma que os animais têm consciência de Deus e O louvam numa linguagem própria. Seja como for, o certo é que Sansão sofre. Uma alma caridosa, a Anda, Agência de Notícias dos Direitos Animais, acionou a Justiça para ter a guarda de Sansão, e assim poder levá-lo para o santuário Anami, no Paraná, para ele viver junto a Kathai. O lugar é especializado em primatas e não permite visitação pública. Tomara que libertem Sansão.



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