Por que amar os índios

Poucos países no mundo possuem uma riqueza étnica como a nossa. Mais de trezentos povos, quase duzentas línguas. São um bem da humanidade

Ilustraçao índio
Legenda: São a porta para “o outro mundo possível”. Precisamos ter vínculos profundos com nossos ancestrais (Krenak), que são o espelho do nosso rosto

Cabelos negros brilhantes, olhos oblíquos, ágeis; corpos com traços de geometrias, penas na cabeça, nos braços, tornozelos, sementes e garras no peito, pés alargados. Uma inexplicável pureza na alma. Força e suavidade, ímpeto e meiguice. Folheio imagens de indígenas. Hatiri se banha no rio. Homens se enfrentam no huka-huka. Waurás coletam jacintos da água para fazer sal. Acho-os tão bonitos, tenho orgulho de que existam. Sinto um imenso amor quando os vejo. Amor que vem de longe, familiar.

Todos nós viemos de seres silvestres. Eles estão em nossos cabelos, peles, boca, olhos, mãos, na estrutura de nossos ossos, nos nossos gestos e sonhos. Yanomami, Potiguara, Tikuna, Krenak, Guarani, Tucano, Macuxi, Munduruku, Juruna, Terena, Guajajara, Pankaruru, Paiter, Tremembé, Calabaça, Nambikwara, Awá-Guajá... Preciosas permanências da antiga humanidade. Uma nação que se preze deve cercar de cuidados os seus seres silvestres. Eles não são indefesos nem ingênuos, têm suas lutas, sabem o que precisam. Aprenderam a sobreviver em séculos de agressões e extermínios.

São guardiões das florestas, das nascentes, sem eles não teremos água para beber, nem chuvas, nem ar, nem alimentos. Sem eles acaba a diversidade de bichos e plantas. Sem eles, falta um pedaço do nosso rosto. Dormir na rede, comer pirão, plantar mandioca; pupunha, açaí, cacau; saci-pererê, curupira com os pés para trás que engana perseguidores.

Sabem fazer a “terra preta de índio” transformando solos pobres em férteis. Suas artes são belíssimas: plumagens, cantos, mitos, interpretações do mundo, rituais. Sua capacidade de perdoar. Dizem “o nosso”, e não “o meu”. Nós, e não eu. Sentem-se animais e plantas, eles são rios, são o vento, não se apartam. Sabem reconstruir-se como plantas podadas que renascem. Educam seus curumins como pessoas que precisam aprender observando. O líder é cordato, paciente, dadivoso.

São mais preparados que nós. Cada um sabe construir uma casa, plantar e colher alimentos, fabricar instrumentos de trabalho, fazer a vestimenta, a comida, tirar da floresta os materiais úteis, sem destruir. Seus olhos veem o que não vemos. Sabem os mistérios da natureza, os venenos das plantas, a medicina das ervas. Alfavaca para respirar. Boldo para digerir. Vivem com o espiritual. Suas terras são ilhas de florestas hoje cercadas de pastos, plantios, de chão nu, queimado, a nossa destruição. O equilíbrio com o meio onde vivem é sagrado. São a porta para “o outro mundo possível”. Precisamos ter vínculos profundos com nossos ancestrais (Krenak), que são o espelho do nosso rosto.

Poucos países no mundo possuem uma riqueza étnica como a nossa. Mais de trezentos povos, quase duzentas línguas. São um bem da humanidade. Temos de defendê-los, conhecê-los e os amar. “Eles são amor que agradece, respeita, conhece e sabe conviver”, diz Anna Dantes que convive com os kaxinawa. Eles representam a esperança de um futuro menos triste para o gênero humano. São a alternativa que temos à destruição. Fazem um trabalho de incalculável valor para a humanidade. Diz minha irmã Marlui Miranda, que canta e convive com eles há décadas. São uma ode à pessoa, à natureza não violentada. Por isso os amamos.

 

 



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