Palavras mudam o mundo

Vi dia destes uma mensagem de Nabby Clifford, um senhor africano de Ghana, que mora no Brasil há trinta anos. Durante todo esse tempo, ele diz, observou algo de que eu nunca me dei conta. Sempre achei que a palavra “negro” tinha nobreza. Bonita, luxuosa, aveludada, com mais conotações que não apenas uma cor. Mas ele mostra o quanto ela pode carregar a discriminação.

E Clifford passa a listar usos que fazemos da palavra “negro” no nosso dia a dia, sempre com uma conotação negativa: lista negra, dia negro, magia negra, câmbio negro, vala negra, mercado negro, peste negra, ovelha negra, fome negra, humor negro, nuvem negra, futuro negro... No dicionário o adjetivo “negro” tem acepções severas: que anuncia infortúnios; infausto, adverso, funesto. Em outra: sujo, encardido. E numa terceira: horrendo, execrável, maldito, pavoroso. As analogias de “negro” são: lamentação, medo, desvirtude, dolorimento, tristeza, entre outras.

Tem razão, o senhor Clifford. Uma pessoa que passa trinta anos estudando uma palavra conhece-a a fundo. Então, ele apela, não deveríamos chamar uma criança de negra, pois tudo o que é negro é associado a algo negativo, isso é introduzido nos sentimentos da criança e interfere no seu amor por si mesma.

Mas quando falamos a palavra “preto” há um sentido de valorização. Feijão preto, carro preto, café preto, grana preta. Devemos usar “preto” e não “negro”, diz Clifford. Seu depoimento foi seguido por seis milhões de pessoas e a palavra está na berlinda. Bom assunto para pensarmos. Um estudo feito há poucos anos encontrou 390 palavras que discriminam racialmente.

A língua abriga todos os preconceitos, não apenas raciais. Contra judeus – judiar significa maltratar; portugueses - as piadas que o povo inventa; contra indígenas - “programa de índio”, uma atividade tediosa, frustrante, cansativa. Contra pobres, contra ricos. Contra o diferente. Quando queremos esconder um preconceito, dizemos o diminutivo carinhoso: velhinho, gordinha, feinha, baixinha. Literatura de Mulherzinha. Temos as louras burras. Os turcos, os galegos. O pé na cozinha, como disse nosso antigo presidente. A doméstica, ou domesticada, o criado-mudo, a mulata, que deriva de mula. Umas mulheres que escrevem poesia não querem ser chamadas de poetisas, mas de poetas.

Sei que muitas palavras carregam estigmas, e podem ferir. Algumas serão esquecidas de acordo com as mudanças de mentalidades. E quase todas vão mudar seu significado, com o tempo. Quando eu era adolescente e alguém dizia “urbanidade”, era um elogio. Demonstrava afabilidade, cortesia. Hoje, com as cidades mergulhadas em conflitos, violência, desigualdade, nunca mais ouvi ninguém dizer, Um senhor de maneiras urbanas, gentis.

E a palavra “humanidade”, que também significa sensibilidade para com o humano, piedade na relação com os semelhantes, benevolência, bondade, mudou. Quem ainda pode dizer que humano é sinônimo de compreensivo, benevolente? Humanista era um dos mais extremos elogios. O mundo gira e nada é permanente, exceto a mudança, já dizia Heráclito. Vamos esperar que o mundo mude tanto, e tão para melhor, que as palavras “negro” e “preto” passem a ser sinônimos de respeito, amizade, amor.



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