Nossos pensadores

O centenário de nascimento de Celso Furtado e Florestan Fernandes é celebrado neste mês de julho

celso furtado e florestan fernandes
Legenda: Celso Furtado e Florestan Fernandes
Foto: Lincoln Sousa

Neste julho comemoramos os cem anos de dois gigantes do pensamento, Celso Furtado e Florestan Fernandes. Nasceram quase no mesmo dia, no mesmo ano de 1920. Furtado em Pombal, Paraíba. Estudou Direito e lutou como pracinha na Segunda Grande Guerra, antes de se tornar estudioso da economia. Eu o conheci, tive o prazer de ouvir suas palavras recordando a sua vinda da Paraíba para o Rio, numa conversa sobre o poeta Augusto dos Anjos.

O paulistano Florestan, que belo nome, era filho de uma portuguesa, trabalhadora do lar, e de pai desconhecido. Foi engraxate e garçom antes de entrar na Universidade de São Paulo como brilhante aluno, e depois professor. Essas mentes iluminadas tomaram para si a “ingrata tarefa” de pensar o Brasil, palavras de Florestan. E mudaram o País.

O pensamento não serve apenas para explicar o mundo, mas para transformá-lo, acreditavam. Furtado veio com novas ideias sobre o subdesenvolvimento em que o Brasil docilmente se encontrava, mostrou que o atraso não era uma etapa do crescimento econômico, como muitos acreditavam, mas uma posição periférica de uma economia subalterna diante de economias capitalistas influentes, poderosas e implacáveis. Abriu as entranhas da economia global que então tomava uma descomunal força, ainda desconhecida. Foi uma linha mestra para o desenvolvimento do Brasil nos tempos de Juscelino Kubitscheck.

E Florestan, libertando-nos do pensamento colonizado, revolveu estruturas sociais e históricas que faziam, e ainda fazem, emperrar o país, como o racismo e as hierarquias da sociedade de classes. Mostrou-nos as consequências da escravidão, da desigualdade. Lutava pela educação como um direito e uma libertação. Ambos, Furtado e Florestan, observaram nossa realidade jogando luz sobre os desvãos da história. Ambos abriram os olhos do País para uma visão mais real. E suas ideias tiveram influência profunda. Lembro que na minha adolescência e durante décadas, os artistas, os intelectuais, buscavam olhar a vida nos lugares subdesenvolvidos. Peças de teatro, músicas, filmes, estudos acadêmicos, poesias se debruçavam sobre favelas, sertões secos, recantos brasileiros subdesenvolvidos. Lembro Juca Chaves cantando a irônica música, Subdesenvolvido, gigante deitado na terra alcatifada de flores se levanta e é um pequenino subdesenvolvido, subdesenvolvido, bom quintal, latifúndio nacional...

De Florestan e Furtado até “Morte e Vida Severina”, “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, “Grande Sertão: Veredas”, “Disparada”, os passos são poucos. Era a mesma corrente de pensamentos, que eles guiavam com lanternas acesas para a frente e para trás. Junto à teoria das raças, de Freyre, a do homem cordial, de Sérgio Buarque de Holanda, às ideias de Paulo Freire sobre educação, e Macunaíma de Mário de Andrade, entre outros, formaram uma consciência brasileira. Suas ideias humanitárias não venceram, temos um País repleto de desigualdade, descaso, vemos a explosão do racismo. Mesmo quem não leu os fundamentais livros de Furtado e Florestan, viveu e vive ainda os desenlaces de seu pensamento. Chegam agora novos pensadores, como Djamila Ribeiro e Ailton Krenak. “Contra as ideias da força, a força das ideias”, disse Florestan.



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