Livros na quarentena

Quando eu era criança, em não sei que dia da semana aparecia na esquina um senhor de paletó cinza, carregando uma maleta nas mãos. Portas e janelas de casas num instante se fechavam, ao ver aquele homem as pessoas se escondiam. Era o vendedor de livros. Mas minha mãe saía à varanda, ele vinha com um sorriso e lhe vendia algum livro. Eram clássicos para crianças e jovens, bem encadernados em capa dura, creio que bem editados, com ilustrações, mas não muitas.

Foi assim que li os inesquecíveis Alice no País das Maravilhas, As Aventuras do Barão de Munchausen, Robinson Crusoé, Pinóquio, O Meu Pé de Laranja Lima, entre outros fascinantes livros que amo, desde então. Sempre foi difícil vender livros no Brasil, a venda de livros é delicada, uma das primeiras coisas a ser afetada em qualquer crise.

Assim, houve uma queda drástica na venda de livros, logo após o anúncio da pandemia. Foi como se alguém desse uma pancada em nossa cabeça, ficamos tontos. E passamos a viver em quarentena. Mas fiquei sabendo que, depois da queda mundial, a venda de livros no Brasil está finalmente aumentando. Mesmo com as livrarias todas de portas fechadas e a publicação de livros bastante reduzida.

Muitas pessoas estão aproveitando o tempo de quarentena para fazer o que almejavam em tempos de correria. E compram livros pela internet. E leem. Mesmo lutando contra a ansiedade e o estresse que atrapalham a concentração. Mesmo com a necessidade que sentem de acompanhar os dramas, as novelas e tragédias da nossa realidade atual. Mesmo com a mente fragmentada pelo uso constante da internet.

Alguns dos livros mais vendidos, isso me entusiasma, são clássicos da literatura. Excelentes livros de ficção, como O Amor nos Tempos do Cólera e Cem Anos de Solidão, de Garcia Márquez; Agosto, de Rubem Fonseca, que mostra bastidores do governo de Getúlio Vargas; ou o clássico A Peste, de Camus estão em algumas das listas dos mais vendidos. E livros de conhecimento, como História da Riqueza do Homem, de Leo Huberman.

E livros para a compreensão do mundo, como o de Ailton Krenak, Ideias Para Adiar o Fim do Mundo, nos primeiros lugares em venda ao lado de A Revolução dos Bichos, de Orwell. Ah, também entram nas listas o meu amado Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll, e uma versão de Alice para colorir.

Parece uma listagem de sonhos e preocupações destes tempos: amor, solidão, compreensão da peste, do sofrimento, da morte, a vileza da política, a riqueza sob outro olhar, o medo do fim deste mundo, a recuperação da natureza, o desejo de um país maravilhoso e de uma realidade mais colorida, mais feliz. Essa seria uma leitura agradavelmente tendenciosa dos títulos.

Ah! Cresceram também as vendas de livros para crianças e para jovens, pais e mães compram mais livros, agora, não apenas para preencher o tempo de seus filhos, como para tentar que adquiram o hábito da leitura. Fico pensando nas pessoas que gostam de livros, querem livros, mas não podem comprá-los. Adultos, jovens e crianças.

Fiquei sabendo, dia destes, que a Prefeitura de Fortaleza está pondo um livro em cada cesta básica que distribui. Combina. O livro é o alimento da juventude, já dizia Cícero, o orador romano.



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