Minha primeira experiência com o teatro online

O espetáculo "Na Colônia Penal" estreou ontem, como parte da comemoração dos 10 anos do Cangaias Coletivo Teatral, e está em minitemporada que encerra nesta segunda-feira (5)

Esta é uma foto do ator Luís Carlos Shinoda em frente à câmera
Foto: Gabi Gomes

Precisei de quase sete meses para me render à proposta de “ir ao teatro” no ambiente virtual. Havia me aproximado de um ou outro experimento feito neste sentido, mas a natural conjectura de dispersão, característica das redes, sempre me levava a um outro caminho na aba ao lado, de modo que eu não havia, até ontem, acompanhado um espetáculo deste tipo do início até o fim.

Para mim, a presença no fazer teatral era obviamente imprescindível e, provavelmente, o que se fizesse no sentido de substituir o corpo a corpo pelo entre-telas soaria como mimese, atingindo o meio do caminho entre teatro e audiovisual.

Acontece que, pensando hoje em como tudo mais se movimentou em direção à reinvenção da “arte do encontro”, que é a própria vida - como diria Vinícius de Moraes (diga-se, de passagem, reiterado esses dias pelo Papa Francisco, que citou a célebre frase na sua mais recente encíclica “Todos irmãos”) - é nítido que o teatro e todas as possibilidades que o envolvem poderiam também envergar nesse sentido.

E assim foi. A explosão de espetáculos virtuais anuncia muito mais que a necessidade de sobrevivência de uma das classes que mais sofreram com a crise trazida pela pandemia. A mensagem maior talvez verse sobre o mínimo necessário para que se faça teatro: ator e espectador. Comunicação e entrega. Relação, ainda que de outro modo, entre indivíduos.

Foi algo do tipo que pude comprovar ao acompanhar “Na Colônia Penal”, uma adaptação do Cangaias Coletivo Teatral da obra homônima de Franz Kafka

Ao som do terceiro toque

Para ver o espetáculo, hora marcada. Às 19h do domingo último, a plateia precisava estar a postos para se conectar ao aplicativo indicado. Um trailer, preparado pelo Cangaias, dava indicações de como o público virtual deveria proceder para melhor assistir à peça. Parecia cinema. Mas aí foi dando a hora de começar a exibição e comecei a sentir o friozinho na barriga que antecede a cena teatral. Parecia teatro. O ator Luís Carlos Shinoda entrou na videochamada, apresentando a todos o Oficial, único personagem ativo da montagem. Ali, se ainda havia alguma dúvida, sumiu. Era teatro. É teatro

Esta é uma foto do ator Luís Carlos Shinoda no espetáculo
Legenda: A entrega do ator Luís Carlos Shinoda atravessa as lentes e dá maior relevo à obra apresentada
Foto: Marina Cavalcante

A presença e o encontro, dados de um jeito ou de outro, estão ali. O olhar profundo, a voz empostada, a gota de suor que escorre, o imprevisível. Todos estes elementos, juntos, compunham a anatomia de uma experiência puramente teatral. Mas vinham acompanhados de outros que nos lembravam a todo instante em que plataforma ocorria a apresentação e que estávamos todos remotamente conectados.

Olhar para o lado e ver o sofá de casa, ao invés de um público que vibra atento acompanhando o espetáculo; ver a vivência ser parcialmente comprometida por uma falha técnica de conexão e, sobretudo, sentir-se distante, fisicamente, de quem dá vida à arte. É preciso dizer que tudo isso, somado, dá um apertinho no peito e uma vontade de estar vivenciando a presença como nos velhos tempos.

As limitações impostas pela distância, no entanto, não tiram o brilho do trabalho, cuidadosamente traduzido para o virtualês, utilizando a nova linguagem a favor da cena.  Em referência ao cinema expressionista, o espetáculo utiliza um jogo de luz e sombra, com o uso de um retroprojetor, que talvez não funcionasse tão bem quanto funcionou na modalidade virtual, a depender de onde acontecesse a apresentação.

Legenda: O uso do retroprojetor é bem colocado em cena, construindo uma atmosfera estética e narrativamente bem interessante
Foto: Gabi Gomes

Em um momento reservado à participação do público, o chat do aplicativo é a forma utilizada para comunicação. A empolgação com que respondi a uma pergunta crucial para o desenrolar da trama me lembrou o alto e bom tom geralmente utilizado para interação em situações deste tipo. A aproximação e distanciamento da câmera, movimentos feitos em revezamento pelo ator, também permitiram um jogo de proporções muito típico da imagem capturada por lentes.

Para além de todos os recursos técnicos e criativos dos quais o grupo dispôs na montagem, o enredo forte, que traz a história de uma colônia com um sistema punitivo que julga e condena, arbitrariamente, os acusados, se encarrega de arrematar a atenção de quem assiste à obra.

“Na Colônia Penal”, montado pela primeira vez pelo Cangaias Coletivo Teatral em 2016, tem dramaturgia de Rafael Barbosa e continua em cartaz até esta segunda-feira (5). Quem quiser viver a experiência de teatro em casa, pode ter mais informações no Instagram do grupo.

Em mim, o espetáculo virtual cumpriu a missão de expandir, na prática, a visão sobre as múltiplas possibilidades existentes no fazer teatral. Foi tão bom ver de novo a atuação sendo feita no instante presente que, apesar de ter terminado a sessão afeita às adaptações virtuais e mais disposta a vivenciar experiências do tipo, posso dizer que a saudade do olho a olho está, hoje, ainda maior. 

 

SERVIÇO

Minitemporada virtual de Na Colônia Penal

05 de outubro (domingo e segunda), às 19h

Ao vivo pela plataforma Zoom

Ingressos retirados via sympla

Valores variados