Em nome da palavra

Acreditando na literatura como possibilidade, que deve ser apresentada de forma acessível e democrática, a professora de escrita criativa Vanessa Passos publica diariamente conteúdos sobre a arte de escrever. Em 2020, lançou o I Concurso Literário Pintura das Palavras, que está com inscrições abertas até o dia 27 de julho

Foto: Bruna Sombra

Eu diria que tem a ver com dar de si. Do que se tem e, muitas vezes, do que ainda precisa ser gerado para vir ao mundo. Escrever é o meio do caminho. É concretizar fora o que mora do lado de dentro, ao passo em que se cria o que, de algum modo, nunca antes existiu. 

É necessidade. Assim, Vanessa Passos, escritora, doutoranda em literatura e professora de escrita criativa, concebe a arte de fazer as palavras dançarem sobre o papel. Leitora desde que se entende por gente, ela lembra bem de quando, ainda na escola, foi marcada pela obra “Felicidade Clandestina”, de Clarice Lispector: “Não era mais uma menina e um livro, mas uma mulher e seu amante”.

A identificação partiu também da dificuldade de acesso ao universo literário, comum à protagonista. “Na época do vestibular, quando ainda eram os dez livros, eu só lia porque minha professora me emprestava todos”, conta. Os percalços financeiros, no entanto, não foram suficientes para separá-la do desejo de continuar devorando, avidamente, os títulos já existentes. Nem para distanciá-la da escrita. Pelo menos não mais que momentaneamente.

Antes da universidade, houve um hiato. Como precisava garantir vaga em instituição de ensino pública, caso contrário não faria faculdade, Vanessa passou o tempo de estudo para o vestibular sem se dedicar a escrever. “Aquilo foi muito sofrido pra mim. Foi mais ou menos um ano em que parei a dança e a escrita, que eram minhas duas formas de arte”.

Legenda: Sempre acompanhada de um bloquinho, para que nenhuma ideia escape, Vanessa Passos carrega, na capa deste que aparece na foto, o reflexo do que tem como lema de vida
Foto: Leandro Pereira

O fim da espera, que veio com a aprovação na faculdade de Letras, trouxe também o alívio de voltar para si: “Lembro que sentei no Bosque Moreira Campos, com um bloquinho e uma caneta e a primeira coisa que fiz foi escrever um conto, ‘Relógio Parado’ o nome dele. Foi muito forte pra mim. Depois daquele texto eu decidi: nunca mais paro de escrever”.

Em outro momento, da leitura de “Cartas a Um Jovem Poeta”, de Rainer Maria Rilke, surgiu a materialização do que já era certeza. “Ele é bem dramático ao perguntar se você morreria se deixasse de escrever. Na época, eu fiquei com isso tão na cabeça que comecei a colocar nas minhas senhas: ‘morreria’. Era uma forma de ficar remetendo a quanto a escrita é importante pra mim”.

Construindo pontes

De dentro da academia, primeiro na faculdade, depois no mestrado e atualmente no doutorado, percebeu que “ainda que a universidade seja maravilhosa, o conteúdo que está ali ainda fica muito preso, abrange poucas pessoas”. “Não era isso que eu queria, eu queria que o que é dito ali fosse para além dos muros da faculdade”.

E o diálogo com o lado de fora se deu de muitas formas até que, em 2018, veio a decisão de dar ao mundo da escrita mais um espaço de troca. Para isso, Vanessa criou a página “Pintura das Palavras”, no Instagram. Uma forma de dar vazão à “necessidade de compartilhar, contribuir com as pessoas”. E assim o é. No campo virtual, criou, mais uma vez, um universo. Neste, escrita, leitura e organização são protagonistas.

Apesar de ainda encontrar quem olhe torto para a ideia de influência digital pelas redes sociais, foi nela que Vanessa se ancorou para desenvolver o projeto. “Acabou o tempo dos escritores presos na torre de marfim, isolados e inacessíveis. É tempo de debate, de diálogo”.

Os frutos dessa aposta, em decorrência natural, logo vieram. Das oficinas, inicialmente mensais, aos conteúdos que passaram a ser diários. Vanessa virou, como queria, canal de conexão entre potenciais criadores e o ato de escrever. Diante das muitas iniciativas desenvolvidas a partir da página, destaque para a criação do curso “321Escreva”, por meio do qual o aluno tem acesso a aulas sobre escrita criativa e também é acompanhado pela escritora  no processo de construção de textos. “A escrita não precisa ser um ato solitário e meu trabalho me permite estar ao lado, ajudar as pessoas”.

Chance de pôr em prática

Já em 2020, em meio ao cenário atípico causado pela pandemia de Covid-19, Vanessa lançou, junto à equipe do Pintura das Palavras ( que conta, hoje, também com o trabalho de Paulo Henrique Passos e Allex Gurgel), o I Concurso Literário Pintura das Palavras. A ideia é fomentar a literatura brasileira e permitir que os inscritos possam pôr em prática os conteúdos disponibilizados, para além do curso regular, gratuita e diariamente nas redes sociais.

Este último foi, inclusive, um dos motivos que fizeram com que o conto fosse o gênero escolhido para a o concurso. “Seria conto ou crônica. Como no ‘Pintura’ eu ministrei mais conteúdos sobre conto, achei interessante começar por ele porque as pessoas teriam mais aparato de elaboração”. Nesta primeira edição, estão sendo oferecidos prêmios em dinheiro, publicação do texto e uma bolsa de estudos. O objetivo é que a disputa ocorra anualmente.

Enquanto fala sobre o quanto foi surpreendida pela repercussão positiva do concurso, que já gerou mais de mil compartilhamentos só no Instagram, Vanessa deixa escapar várias outras ideias. De um novo podcast que está sendo preparado à possibilidade de publicar novos autores: a cabeça da professora que “acredita no poder da coletividade e da parceria” fervilha. O desejo é levar adiante, de todas as formas possíveis, as ações que um dia  se resumiram ao anseio de comunicar de forma acessível e democrática.

Sentindo hoje o que não era possível antes, “que tem uma contribuição a dar à sociedade”,  Vanessa Passos vislumbra a multiplicação  dos talentos - e não só os próprios. “Tem sol pra todo mundo. Quanto mais iniciativas houver, melhor”