Entenda os caminhos para o Fortaleza receber investimento do bilionário russo

Segundo a Forbes, o empresário Ivan Savvidis tem fortuna avaliada em R$ 6,37 bilhões

Fortaleza
Dentre os patrimônios, o Fortaleza tem investido em melhorias no Centro de Excelência, no Pici Foto: Thiago Gadelha / SVM

As tratativas são iniciais, mas existem. A diretoria do Fortaleza Esporte Clube confirmou que um representante do time grego PAOK entrou em contato com o presidente Marcelo Paz para comunicar sobre um possível investimento realizado na equipe cearense. O empresário por trás do aporte financeiro atende por Ivan Savvidis, um russo que deseja se inserir no futebol brasileiro e tem fortuna estimada em R$ 6,37 bilhões segundo a Forbes.

Uma reunião, com chance de ser fora do país, será agendada nos próximos dias entre as partes envolvidas. E as possibilidades de negociação, caso avancem, são duas: uma parceria de patrocínio ou a compra do clube.

A primeira é mais viável e bem recebida pela cúpula tricolor. Para ser oficializada, a instituição deve receber um projeto de investimento, que será encaminhado ao Conselho Deliberativo. O órgão faz uma análise financeira, prepara um laudo e então devolve à Diretoria Executiva, que tem a decisão de aprovar ou não o novo patrocinador.

Nesse cenário, a contribuição do exterior pode vir através de Naming Rights, exposição de marca através de divulgação do clube ou doação. Ainda sem patrocinador master definido, o Fortaleza aprovou a projeção orçamentária de 2020 com R$ 109 milhões, sendo R$ 8.042.000,00 oriundos de patrocínio.

O sistema solicita o contato do Conselho Deliberativo apenas se ultrapassar o valor projetado, ou seja, uma negociação dentre os parâmetros estimados pode ser conduzida diretamente pela Diretoria Executiva do Fortaleza.

Todas as formas de recebimento estão previstas pelo atual estatuto, que impede apenas a existência de um proprietário no time. Assim, a 2ª opção de negócio tem a complexidade de necessitar de uma alteração no regimento - algo que é estudado internamente, mas não tem o aval da maioria dos representantes tricolores na instituição e também não é um desejo, já que o clube não está à venda

Clube-empresa

A mudança específica é na descrição interna do Fortaleza. Hoje, a entidade é uma Associação Civil Privada, logo, os donos são os associados, o que envolve sócio-proprietários, membros da diretoria e os conselheiros. Para permitir uma aquisição, o Leão deve se tornar um clube-empresa.

A transformação exige que um capital seja disponibilizado e comercializado na Bolsa de Valores. No processo, quem realizasse a compra da maior parte das ações se tornaria o sócio-majoritário, sendo o dono do clube - como Savvidis é no PAOK, da Grécia.

Para a mudança existir, pelo menos 30 conselheiros ou 50 sócio-proprietários devem preparar um documento solicitando a instalação de uma comissão para reforma no estatuto, que é passível de modernização. Se atender aos pré-requisitos, uma Assembleia será instaurada a fim de votar em prol ou não da migração. Ao todo, 4.250 pessoas estão aptas a participar da reunião: são 4.000 conselheiros e 250 sócio-proprietários.

A logística é a mesma para qualquer sugestão de alteração no Fortaleza Esporte Clube, incluindo modificação no hino, cores, escudo, uniforme ou verba destinada a cada setor. O exemplo é de democracia na instituição de 101 anos de história, que sempre priorizou o próprio torcedor como principal patrimônio.

Ivan
Ivan Savvidis é proprietário do PAOK, mas também tem investimentos em empresas agrícolas e de carne Foto: AFP

Devido a robustez do processo, a inclusão de sócio-torcedores na decisão não é descartada - isso em um futuro avanço da negociação, que sequer teve início. Para além de toda a influência de um mandatário, que passaria a gerenciar o clube por completo, um primeiro impacto é nas finanças. Apesar de aberto a um montante de investimento maior, o Fortaleza passaria a pagar tributos da mesma forma que uma empresa - no modelo associativo, por exemplo, o clube tem isenção de impostos e diminuição da alíquota por ser sem fins lucrativos.

A vantagem, no entanto, é o crescimento econômico. A frente do PAOK desde 2013, Ivan Savvidis quitou todas as dívidas da instituição, considerava falida no país, e a tornou tricampeã da Copa da Grécia.

"Particularmente, acho o modelo bom. Mas não acredito que o Brasil esteja preparado para receber esse tipo de investimento. O investidor quer o lucro, o lado esportivo fica em segundo plano. Aqui não funciona assim, o torcedor não tem essa paciência toda se ficarmos temporadas sem títulos”, ressaltou Demetrius Coelho, presidente do Conselho Deliberativo do Fortaleza.

Na contramão, um fator importante a ser frisado é a possibilidade de falência. Como Associação, o time tem mecanismos de se manter ativo economicamente, mesmo que funcionando em situação crítica: caso do Cruzeiro, que foi rebaixado para a Série B e tem mais de R$ 800 milhões em dívidas. Se fosse uma empresa, já teria as atividades encerradas.

Pontos positivos: Maior investimento para contratações; maior investimento em infraestrutura; possibilidade de estádio próprio; projeção orçamentária em outro patamar e ganhos esportivos tendo em vista maior investimento.

Pontos críticos: elevação da carga tributária (caso de clube-empresa); influência externa na gestão de futebol; dependência financeira; menor influência da torcida em decisões e metas financeiras acima das metas esportivas.