Ceni: adeus era inevitável e o que fica é o legado no Fortaleza

Não há o que reclamar, apenas agradecer

Ceni
No fim, o que fica é o discurso: criar um legado. A frase foi dita por Ceni na apresentação e se manteve como máxima até aqui Foto: JL Rosa

Não há o que reclamar, apenas agradecer. A relação de quase dois anos chega ao fim com um Rogério Ceni ainda mais fortalecido e agora ídolo de um outro tricolor, o Fortaleza. Badalado desde a chegada ao clube em novembro de 2017, soube se deixar abraçar por uma torcida apaixonada e, jamais, se portou como alguém maior que a equipe que defendia.

O adeus chegava a ser inevitável, assim como o rótulo de maior treinador da história do clube, algo incontestável. Longe de uma relação abalada pela saída, o respeito. Com o profissionalismo apresentando no dia a dia, Ceni apenas provou porque é gigante e, acima de tudo, conseguiu deixar o Fortaleza com dimensões mais exuberantes, fruto do trabalho desenvolvido e dos seguidos títulos da Série B, Campeonato Cearense e Copa do Nordeste.

Do incômodo com a alimentação ao Centro de Excelência. Do rigor nas negociações aos treinos fechados. Da elegância à beira do campo às lágrimas com as homenagens da arquibancada. Tudo foi intenso e escrito justamente no ano do centenário, o capítulo mais emblemático. A diretoria do Fortaleza foi assertiva na negociação e deu um salto de patamar com a contratação.

É verdade, foi laboratório. Mas quem não há de ser um dia? Pela primeira vez, Ceni teve uma instituição inteiramente disponível para administrar. Os erros nos esquemas iniciais foram evidentes até a criação do 4-2-4, a birra com jogadores contratados também existiu e as consecutivas derrotas para o Ceará em 2018 o balançaram no cargo, nunca nas mãos do presidente Marcelo Paz, que acreditou no projeto apresentado. 

Morando sozinho em um hotel na Avenida Beira-Mar, Ceni costumava dizer que o trabalho no Fortaleza era a forma de lazer favorita. Saindo pouco pela capital cearense e se dedicado quase que exclusivamente aos treinos, participava da contratação de reforços e fazia questão de não repetir as atividades dos atletas.

No tempo livre, tinha a prática do tênis como hobby principal e costumava assistir a reprises de partidas durante a madrugada. Ao todo, comandou a equipe em 94 jogos oficias, desconsiderando os amistosos. Foram 51 vitórias, 18 empates e 25 derrotas; aproveitamento de 60,63%.

Adepto de uma filosofia ofensiva e que almejava o protagonismo em campo, teve uma equipe que marcou 135 gols e foi vazada 83 vezes nestes um ano e seis meses, ou melhor, 639 dias. Para o volante Juninho, que chegou ao clube em abril, os jogadores foram surpreendidos com a saída, mas o sentimento de gratidão por Ceni se sobressai.

"Trabalhei com ele pouco tempo, mas percebi que é um cara que tenta extrair o máximo de cada um. Também é preocupado com o grupo, não existe só os 11. Sei que vai seguir torcendo por nós porque o Fortaleza se tornou uma família. E, hoje, é um membro da nossa família que está saindo", lamentou.

No fim, o que fica é o discurso: criar um legado. A frase foi dita por Ceni na apresentação e se manteve como máxima até aqui. A imagem que fica é a de um homem que se entregou ao jogo com tamanha intensidade que termina os 90 minutos ensopado como um atleta. O agradecimento é do futebol cearense.

Um adendo: deixa um Fortaleza bem montado no Brasileirão e que caminha com as próprias forças na competição. O desafio agora é encontrar um substituto à altura para alguém que nunca deixou de fazer história a cada passo que deu no Pici.