Batalha de Avellaneda: o maior jogo da história do futebol cearense

A partida entre Fortaleza e Independiente atingiu o ápice dos grandes eventos envolvendo clubes do Estado

Fortaleza
Foto: AFP

O legado da hegemonia é imediatista. Hoje é o maior, amanhã não. O impacto é no presente. Mas o que era esboço virou definitivo: Independiente x Fortaleza é o maior jogo da história do futebol cearense até aqui.

Sim, sem clubismo algum, falamos de um campo nunca antes desbravado. A batalha de Avellaneda, ocorrida nesta quinta-feira (13), foi uma demonstração de força. Um novo patamar para o Estado. E, se tratando de Copa Sul-Americana, com chances reais de classificação.

O demérito não existe na análise. Por décadas, o evento máximo se alterna. O posto sempre ganha um detentor à medida que o esporte evolui. No rol, temos final de Campeonato Brasileiro, uma de Copa do Brasil, títulos nacionais e até de Norte-Nordeste. Agora se refez pela quebra da fronteira.

Só que no enredo tricolor na Argentina, vale ressaltar ainda os capítulos que permeiam a partida. Não se tratou apenas do resultado, uma derrota por 1 a 0, mas de um contexto de gradenza.

Partida internacional

Fortaleza x Independiente
Foto: AFP

Desde que o futebol cearense se profissionalizou e entrou no circuito esportivo, foi a primeira vez que um clube do Estado participou de uma partida oficial fora do país. Já houve amistosos e também participações na mesma Copa Sul-Americana e até Copa Conmebol (com o Ceará, caindo na extinta 'fase nacional') só que romper a fronteira para encarar um time do estrangeiro foi inédito. Em 101 anos tricolores, o feito vem logo para coroar um retorno à Série A do Campeonato Brasileiro após 12 temporadas.

Invasão tricolor

Buenos Aires virou extensão cearense (ou tricolor). Não é exagero afirmar: Fortaleza se internacionalizou. Milhares viajaram à Argentina para a Copa Sul-Americana. O movimento foi tamanho que até estranheza causou aos hermanos. Bandeiras, faixas e o vermelho, azul e branco: é o “Laion” dando as boas-vindas à América. A movimentação é um exemplo da grandiosidade do evento, data histórica e vivenciada por quem também a escreveu. O poder da arquibancada.

Peso do rival

Argentinos
Foto: AFP

O nível do adversário é especial e tem carga histórica. Coube o destino que fosse um argentino, ou melhor, logo o maior campeão da América do Sul. Enquanto o Fortaleza matura experiência, o Independiente a distribui: dois títulos da Sul-Americana e sete da Libertadores. O tamanho do time é tanto que o faz temido, sendo o principal pesadelo no sorteio da Sula 2020. Pelo contexto, o Leão entra na caminhada internacional frente a um gigante.

Desempenho

Fortaleza x Independiente
Foto: AFP

Para um debutante, o Fortaleza foi aguerrido. Na verdade, esteve até melhor em campo, mas pecou no arremate final. Atuando no estádio Libertadores de América, a casa do Independiente, o Leão manteve a formação - 4-2-4 - e pressionou sem medo. É verdade, foi superado, 1 a 0, mas sem vexame ou sofrimento. Volta para casa, com jogo no dia 27, às 21h30, na Arena Castelão, com chance total de reverter o placar e se classificar à 2ª fase.

Duelos emblemáticos

Grêmio 1x0 Ceará | Final - Copa do Brasil de 1994

Dentre os jogos eternos, esse é certamente um dos mais lendários. No dia 10 de agosto daquele ano, o Ceará encarou o Grêmio no Olímpico, em Porto Alegre (RS), e foi derrotado por 1 a 0 na partida de volta. Com o empate em 0 a 0 na Arena Castelão no jogo de ida, o Vovô podia até empatar no Sul, mas foi superado pelos gaúchos e perdeu a taça. Desde a criação da competição, foi a primeira e única vez que um cearense chegou à decisão. Na caminhada, o time de Porangabuçu deixou pelo caminho clubes como Palmeiras e Internacional. O detalhe: aos 31 do 2º tempo, o juiz Oscar Roberto de Godói ignorou um pênalti nítido para os Alvinegros, prejudicados ao término da partida.

"A torcida do Ceará nos recebeu como campeões. O carinho do torcedor prova que, para eles, os verdadeiros campeões fomos nós. O Ceará é campeão moral daquela Copa do Brasil", relembrou Sérgio Alves, ídolo alvinegro, em uma reportagem do Diário do Nordeste.

Palmeiras 8x2 Fortaleza | Final - Taça Brasil de 1960

O placar assusta e evidencia a disparidade técnica. Com regulamento distinto, o Fortaleza foi finalista pela primeira vez da 1ª divisão nacional em 1960 - a segunda veio em 1968. Naquele período, o torneio era organizado pela CBD (agora CBF) e contava com a participação dos campeões estaduais. Distribuídos por regiões, os vencedores dos zonais avançavam para a final - no caso o Leão e o Palmeiras. Em plena efervescência da famosa 'Academia", o time paulista empatou o primeiro jogo em 0 a 0, na Capital cearense, e goleou quando jogou no Pacaembu. O Tricolor até abriu o placar, com Charuto, mas sucumbiu ao ritmo alviverde.

"O lateral do Fortaleza, Ninoso, disse em entrevista que não conhecia o Julinho Botelho, craque do Palmeiras: 'de ponta conheço apenas Garrincha'. Lá em São Paulo, sofreu muito por isso. O Botelho o humilhou em campo, ganhou todas na velocidade e foi o craque do jogo", relembrou Wilton Bezerra, colunista do Sistema Verdes Mares.