Vejo luz na escuridão

Estou em casa. Aproveito o tempo para ler, rezar, estabelecer o diálogo interno, solidarizar-me com os que se alegram e chorar com os que sofrem.

Estes dias, reli a obra Ensaio sobre a Cegueira, do português, Saramago, que retrata a metáfora de uma sociedade, na qual cada um, em momentos de perigo e angústia, pensa apenas em si. Porém, a obra descreve a ação de uma mulher, única que não perdeu a visão e que se passa por cega para ajudar os outros.

A ação dela ratifica meu pensamento: o ser humano é essencialmente bom. Quando age com maldade, o faz pressionado por circunstâncias que desconhecemos. Há um "tsunami" de solidariedade. Batalhão de anjos incansáveis, prontos a ir além do «amar o próximo como a si mesmos», para seguir a máxima de Jesus: Não há amor maior do que aquele que dá a vida pelos seus amigos.

A Igreja reinventa-se no testemunho doméstico, corajoso, sem triunfalismos, de seus leigos, pastores e religiosos. Igreja samaritana, sensível aos sofrimentos dos filhos, indo ao encontro de todos que estão sem pão e proteção. Multiplicam-se orações e celebrações nas redes sociais. Telefones disponíveis para o apoio psicológico dos sozinhos. Há tantos que, da sacada de seus lares, saem para cantar e animar vizinhos. Outros, se juntam nas janelas para rezar, aplaudir médicos e criticar políticos na condução da crise.

Sou otimista. Acredito que a doença mais mortal é a falta de esperança. É não ser capaz tornar fecunda a própria vida em situações de morte. Por isso, vejo luz, além da pandemia do vírus que nos isola e ameaça, vejo o mundo mais forte, unido na promoção do compromisso e da solidariedade, na qual reinventamos a vida e a nós mesmos e descobrimos a bondade que nos habita.

Eugênio Pacelli

Sacerdote Jesuíta, mestre em Teologia, Diretor Pastoral do Colégio Santo Inácio e diretor do Polo Universitário Santo Inácio