Vai ficar a saudade

Os governos municipal e estadual delineiam medidas de retorno às atividades econômicas, flexibilizando-se o isolamento social. De fato, com responsabilidade, controle rígido e de modo bem gradativo, é preciso voltar à vida externa. Afinal, há outras mazelas que poderão advir da reclusão. No entanto, abstraindo-se os sentimentos ruins de receio às sequelas trazidas pelo isolamento, notadamente no que diz respeito à saúde dos negócios e emprego, é possível se dizer ter sido extremamente benéfico o convívio intenso e diário entre familiares. Algo que não havia antes. Por mais que o teletrabalho tenha sido, para muitos, desgastante, inclusive com intensificação de atividades e extrapolação de jornadas, é/era possível acordar um pouco mais tarde; dormir mais tarde, em decorrência de interação familiar. Assistiu-se a filmes, dentre outras atividades. Não se enfrentava trânsito na cidade; não se perdia tempo com deslocamento; era sempre possível realizar refeições em casa. A TV, rádio e outros meios de comunicação estavam sempre ali, ao alcance de todos, independentemente de classe social. A natureza, também, e já há estudos sobre, sentiu os efeitos positivos.

De novo, não se esquece, aqui, dos que sofreram e vão sofrer com o isolamento. Afinal, no Brasil, 72% dos negócios são representados por micro e pequenas empresas. Todavia, mesmo esses, a eles se podem tirar lições positivas tanto no atinente à superação de momentos, quanto com relação ao reportado convívio intenso familiar. O sentimento, e isso valeu até para os que têm renda certa, era/é de apreensão, mas também de reconstruções, de ajustes, adequações de vida, na certeza de que pode até o mundo voltar ao que antes se dizia normal, mas certamente, para muitos, surgirão aprendizados. Em verdade, de todo esse período intenso de casa vai ficar a saudade.

Adelivan Scolla

Jornalista e escritor


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