Os “filhos” de Cassiano

Conheço-o há alguns anos. Cassiano, cujo sobrenome nunca me foi dado saber, conta que tem 42 anos e possui familiares em Canindé, município cearense conhecido em todo o País pela religiosidade em torno de São Francisco. Maltrapilho, barbado, vestindo sempre uma surrada bermuda escura, percorre as ruas da Parquelândia e Amadeu Furtado com um carrinho desses de geladeira, fazendo pequenos fretes, como meio de sobrevivência. 

Ao seu lado, como fiéis companheiros, estão cinco vira-latas simpáticos, que ele chama de “filhos”. São eles a mãe de todos, Lua; o único macho e o maior de todos, denominado Cassianjo, de pelagem quase que totalmente branca; e suas irmãs, com os engraçados nomes de Bebinha, Acerola e Pretinha. 
Cassiano é uma dessas pessoas que, pelas mais diversas razões – divergências familiares, vícios ou mesmo por pura decisão pessoal e inarredável -, optaram por viver ao relento, nas praças ou circulando pelas vias de Fortaleza. Como muitos moradores de rua, encontrou, cuidando de seus cães, uma razão de lutar, de resistir. 

Além de trabalhar, Cassiano costuma pedir ajuda financeira às pessoas, com a qual compra a ração para seus animais. E enternece-me ver o carinho que lhes dedica, mesmo vivendo uma vida de privações e extrema pobreza. Demonstra amor sincero, puro, pelos companheiros. Sofreu, por exemplo, quando a cadela Lua teve uma das patas quebrada, quando atropelada por um motorista irresponsável, há algum tempo. 

Com uma ajuda anônima, Lua foi salva e hoje continua a segui-lo pelas ruas. Outra vez, um guiador, bêbado, atingiu seu carrinho, danificando-o seriamente. Mesmo assim, sem esmorecer, pedindo ajuda a um e a outro, ele o recuperou e, todos os dias, trabalha duramente. 

Na figura de Cassiano, homenageio todos aqueles que, mesmo na extrema indigência, mantêm viva a chama do amor pelos irracionais. 

Gilson Barbosa 

Jornalista 


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