O pranto dos rios

Gilson Barbosa é jornalista
Legenda: Gilson Barbosa é jornalista

Diante dessa tragédia natural e humana que se abate sobre Minas Gerais e Bahia, principalmente, bem como em outros Estados brasileiros, com as fortes chuvas e a elevação dos leitos dos rios, observemos o poema com o título “Lamento de um rio”, da professora capixaba Scheilla Lobato.

Nos versos dessa poesia, tão carregada de dramaticidade, o rio “fala” ao leitor. Desculpa-se por todos os estragos que vem causando a milhares de famílias ribeirinhas e até residentes em locais mais distantes, assim como pela destruição de plantações e a morte de animais. Alega o curso d’água que “só queria passar” no seu leito natural, mas que foi impedido pela invasão de seu espaço pelo homem e pelo lixo por este produzido, além de pedras, paus, entulho de toda espécie.

Enfim, Scheilla coloca, na “voz” do rio, toda a interferência provocada pelos agrupamentos humanos, em pequenas e grandes cidades que, em épocas de fortes chuvas, resulta em perdas materiais e humanas -  estas, principalmente. Defende-se o rio por tanta tristeza que tem causado às pessoas, mas que seu destino natural é o de passar por seu caminho, invadido constantemente por obstáculos que lhe tolhem o rumo e violentam sua nascente , além de desmatarem seu leito. 

Nada mais real, de fato. É verdade que as chuvas em Minas Gerais, por exemplo, são consideradas as maiores dos últimos 30 anos, assim como, muito provavelmente, nos demais Estados assolados pelas inundações. Porém, muito do que se vê, de toda essa gente perdendo rapidamente o que levou anos ou até uma vida inteira para conquistar, resulta do impacto da ação humana sobre a natureza.

Os versos resumem uma situação recorrente em muitos rios brasileiros, cujos leitos são constantemente invadidos, agredidos, mal cuidados, esquecidos. O rio, que dá o alimento, o transporte, o banho aprazível e gostoso, também pode causar toda essa torrente de tristezas.

Que todas essas pessoas - gente trabalhadora, humilde, carente - sejam acolhidas neste momento extremamente difícil. Mas que aprendamos, também, a conviver com a natureza, respeitando-a e conservando-a como deveria ser. 

Gilson Barbosa é jornalista