O Brasil não é racista?

Este País não para! Todo dia traz um episódio para escandalizar. Às vésperas do dia da “Consciência Negra”, um homem foi assassinado por seguranças do Carrefour e sob a mira de celulares mais atentos. Rapidamente, o vídeo passou a circular pelas redes sociais, repercutindo o escândalo em todo mundo. 

Os brasileiros reagiram em protestos individuais e coletivos, espelhando a experiência americana pós-assassinato de George Floyd, sem a mesma intensidade. Veio a voz do Governo pelas palavras do vice-presidente: “Não, para mim no Brasil não existe racismo. Isso é uma coisa que querem importar, isso não existe aqui”. Será que não? Por que tantos negros morrem no País, enquanto muitos outros superlotam as cadeias? Por que as mulheres negras sofrem mais severamente a violência e os abusos? Por que a maior fração dos trabalhadores informais é ocupada pelas pessoas negras? Por que quase não há negros matriculados nas escolas particulares? 

Quantos negros ocupam profissões ou cargos de maior destaque na sociedade? Para além da conduta discriminatória específica, por motivo de cor ou raça, o racismo representa o jugo de um grupo por outro que goza de maior hegemonia. Denomina-se racismo estrutural a uma naturalização das ações, falas, modos de pensar, hábitos que promovem e alimentam, direta ou indiretamente, a subalternização e a segregação das pessoas negras.

O reflexo desse racismo está nas falas reativas daquele que afirma não ser racista: “na minha casa somos todos iguais; assentamo-nos à mesma mesa”. Ou na designação “morena”, referindo-se à pessoa negra. Destaca a frequente relação de subordinação ou subjaz a ideia de que o termo negro ou preto carrega um desvalor. Se não é corrente a discriminação racial pela conduta direta, intolerante e preconceituosa, qualificada como crime, o racismo estrutural é gritante. Não basta não ser racista, é necessário ser antirracista.

Joyceane Bezerra de Menezes

Advogada


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