Maternidade atípica

Escrito por Clarissa Leão clarissa@neuropsicocentro.com.br
08 de Outubro de 2022 - 06:00
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Legenda: Clarissa Leão é neuropsicóloga especialista em Autismo e sócia diretora do Neuropsicocentro (NPC)

A maternidade é repleta de belezas mas, também, de importantes desafios. Quando se é mãe de uma criança autista, acrescenta-se ainda ao cenário a luta pela afirmação dos direitos dessa criança em um mundo, infelizmente, ainda pouco preparado para acolher todas as formas de funcionamento neurocognitivo.

Como se não bastasse a essa mãe ter de tomar a frente nas decisões a respeito do desenvolvimento de seu filho muitas vezes de maneira solitária, uma vez que é elevado o número das que são abandonadas por seus companheiros, ela precisa corresponder a todas as expectativas sociais. Da mãe atípica, espera-se uma fortaleza sem precedentes; uma aproximação com a super-heroína que nunca cansa e nunca falha.

A brasileira Violet Shibuta, autista e mãe atípica, entende bem disso e contou suas experiências sobre os desafios de educar uma criança com Transtorno do Espectro Autista (TEA) no Simpósio NPC. Ela e seu marido estão à frente do Family on Board, projeto em que compartilham o dia a dia com seus filhos Summer, que é autista, e Stefan.

As mães atípicas costumam estar a par das melhores intervenções em saúde para seus filhos e, quando questionadas sobre o desenvolvimento da criança, sabem responder com propriedade sobre a jornada evolutiva das terapias. Acompanham de perto a rotina, vibrando a cada evolução e buscando ao máximo dar o suporte do qual seus filhos precisam. Ao fim do dia, estar sozinha nessa jornada é bastante exaustivo. Quem cuida dessas mulheres?

O estresse vivido por uma mãe atípica, segundo estudo publicado no Journal of Autism and Developmental Disorders, é comparado ao estresse crônico vivido por soldados em guerra. Essas mães estão no front, por assim dizer, e lideram a maioria dos movimentos de luta pela implementação de políticas públicas voltadas para a Pessoa com Deficiência (PcD).

Precisamos falar com mães atípicas sobre suas vivências e saber ouvi-las, não à luz do que idealizamos sobre elas, mas, sim, dispostos a ser rede de apoio e acolhimento real. A maternidade atípica precisa ser desmistificada com empatia e, para isso, é fundamental promover verdadeiros espaços de escuta para essas mães.

Clarissa Leão é neuropsicóloga especialista em Autismo e sócia diretora do Neuropsicocentro (NPC)

 

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