Humana, demasiadamente humana

Savio Alencar
Legenda: Savio Alencar é editor e pesquisador de literatura
Foto: Arquivo pessoal

Não é uma biografia tradicional. Disso se pode falar sobre “Arendt: entre o amor e o mal” (Companhia das Letras), da sueca Ann Heberlein. Nela brilha a figura de Hannah Arendt, intelectual alemã autora de “Eichmann em Jerusalém”, livro em que testemunha o julgamento de Adolf Eichmann por sua participação na série de atrocidades que dizimaram o povo judeu, a que Arendt pertencia, durante a Segunda Guerra.

A recusa, digamos, à tradição do gênero biográfico está explicitada já no prefácio, por motivos que o projeto do livro, mais próximo do ensaio, explica. Interessa à autora focalizar Hannah Arendt diante das ideias de amor e mal, que considera fundamentais para a compreensão de sua vida e de sua obra, um par que se ilumina mutuamente na construção deste perfil.

A partir dessas ideias – e de outras, como responsabilidade, bondade e perdão –, colhidas na obra da pensadora, Ann Heberlein percorre a trajetória de Arendt, da infância à velhice. E faz isso num texto que chama a atenção para a correspondência entre seu modo de vida e seu sistema filosófico, apesar de ela própria não se considerar uma filósofa – “Minha profissão, se podemos assim dizer, é a teoria política”, ressaltaria.

Por essa particularidade, “Arendt” também funciona como um guia de entrada à bibliografia da autora de “Homens em tempos sombrios” e “A condição humana”, dentre outros. Alguns capítulos se detêm na interpretação da obra de Arendt, lida por Heberlein na companhia de diversos filósofos, de Kant a Lévinas, método que se aproxima da linguagem acadêmica, mas se distancia da retórica chata e empolada. Essa estratégia acaba por ressaltar a perenidade dos escritos e da figura de Arendt.

A afinidade entre biógrafa e biografada não inibe aquela de apontar as contradições desta, como o perdão de Arendt a Martin Heidegger, seu antigo caso amoroso. Membro do Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães, ele estivera envolvido com o nazismo. “A lealdade e o amor que sentia por ele a cegaram”, diz a autora.

Sem, no entanto, censurar sua biografada, Ann Heberlein faz Hannah Arendt reviver num retrato comovente de uma personagem humana, demasiadamente humana.

Sávio Alencar é editor e pesquisador de literatura | salencarlimalopes@gmail.com