Fake news e velhas mentiras

Sustentar que o aquecimento global é uma invenção, que a terra é plana, que a Covid-19 não passa de uma gripezinha que mata somente velhos e doentes, que o holocausto não existiu, que não há racismo no Brasil são falas que deixaram, há muito tempo, de serem espécies de fake news. São argumentos ultrapassados.

Todos os argumentos, todos os alertas e todos os dados sobre a necessidade urgente de repensarmos o nosso modelo de vida, de produção e consumo para revertemos a degradação ambiental e todos os seus efeitos, como o aquecimento global, já foram ditos, ensinados, debatidos e repetidos em alto e bom som.

E quem ainda não ouviu falar sobre essa receita do caos ambiental que estamos praticando? Estamos cansados de ouvir isso. Quem acha que esse sistema de causalidade destrutiva não é verdadeiro? Ninguém, pois sentimos os efeitos na pele. Mas quem se importa de fato com o caos ambiental? Poucos. Nosso problema maior não está na produção massiva de mentiras e fake news, mas na nossa capacidade de sermos ou não sensibilizados pelos fatos e pela situação. 

O problema das fake news não está na sua imprecisão lógico-causal, na sua falta de clareza e distinção, mas no valor e uso que fazemos delas. O que confere validade às fake news, entre outras coisas, é o seu uso prático e sua função moral. Essas velhas mentiras são sustentadas pelo nosso sistema de consumo e riqueza, que regula a ordem normalizando a morte pandêmica, a desigualdade e a degradação ambiental pela mentira e a negação. Com as fake news, apesar dos fatos, continuamos a consumir mais, a destruir mais e, o mais importante, a suportar viver com a tranquilidade dos justos apesar do presente, do passado e do futuro que deixaremos como legado.

Ericson Savio Falabretti

Doutor em Filosofia


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