Estamos vivos, continuaremos vivos

Frente ao isolamento social pela pandemia de Covid-19 e ao adoecimento nacional pelo pandemônio político, talvez restasse às artes cênicas cantar com o Buarque: “O que será que será?”. Futuro incerto, presente opressivo. A invenção pelos artistas de sua própria sobrevivência é o que temos para hoje e para amanhã. Mas não só. O que se vê é a força criativa da cena brasileira. Se você esperava configurações de Talking Heads exaustivamente atualizadas, prepare-se para o que pode a fabulação humana.

“Da adversidade vivemos”, dizia Helio Oiticica com misto de alerta e revolta. Também diz o 27º Festival Nordestino de Teatro de Guaramiranga, importante paiol formativo para as artes vivas desta/nesta região. Com o mote “É. Foi. Será. Teatro”, a brava equipe responde de modo contundente ao tempo, realizando a edição 2020 inteiramente no modo remoto. A programação compõe-se de 10 obras dentre espetáculos filmados mostrados na íntegra; trabalhos cênicos transcriados para as plataformas; proposições gestadas de saída para o suporte digital. A live propõe o caráter alive ao modo não presencial.

Há um interessante embate do corpo com os meios (Zoom, Instagram, WhatsApp, YouTube, e-mail etc.) para fazê-los conspirar com a ação, de onde aparecem inusitadas e interessantíssimas propostas. Os trabalhos esbarram no limite de se tornarem obras audiovisuais, mas dele retornam. Há muito ainda por descobrir: a migração digital não é mera circunstância, veio pra ficar. E estamos apenas no começo dessa aventura do bom teatro de sempre, descobrindo outras modulações de sobre-existir como tal, vencendo, inclusive, distâncias outrora intransponíveis. É todo um novo campo a percorrer.

Há uma dramaturgia neofascista acontecente nos meios digitais que insiste em querer nos matar. Há uma contranarrativa, tão viral quanto vital, das artes vivas que insistem em não morrer. Será.

Thereza Rocha

Artista e pesquisadora


Assuntos Relacionados