Cultura do cancelamento

As redes sociais ampliaram exponencialmente o que tradicionalmente é chamado de "tribunal da opinião pública". Antes delas, os fatos divulgados nos noticiários de rádio, TV e Internet davam vazão a conversas de boteco, discussões nos jantares em família e, se mais graves, provocavam manifestações. Mas hoje em dia, todos temos o poder de opinar, julgar e condenar alguém, famoso ou não, 24 horas por dia, e com alcance mundial.

Assim é a cultura do cancelamento: milhares de pessoas têm acesso a uma notícia (que pode não ser um fato) e, por não concordarem com a conduta da pessoa em questão, não se contentam em analisá-la e oferecer sua opinião a respeito. Elas decidem denunciar o "infrator" de acordo seus conceitos (não os da lei) a todo mundo, avaliando a notícia exclusivamente, por meio de suas lentes de moral.

Se o "agressor", que usa o próprio perfil nas mídias sociais para cancelar alguém, acredita que atinge apenas o "cancelado", deve pensar duas vezes. Não se atentar aos fatos (ou render-se imediatamente às fake news) demonstra superficialidade e pouco uso da inteligência.

Parece que não há, efetivamente, uma maneira de evitarmos sermos "cancelados". Assim como a vizinha pode espalhar para o condomínio inteiro que você chegou embriagado em casa (quando você estava apenas voltando do efeito da anestesia), o que falam sobre nós nas redes sociais e a velocidade como esses discursos se espalham estão fora do nosso controle. A disputa em torno da "cultura do cancelamento" deve ser longa e difícil.

Em alguns casos, medidas legais são impetradas com sucesso para impedir que o acusador repita a falácia ou se retrate - no entanto, infelizmente, o que está na Internet nunca desaparece de verdade.

A sombra na reputação e a cicatriz causadas passam a acompanhar o atingido pelo julgamento, e dificilmente se apagarão.

Viviane Vicente
Consultora de Comportamento Organizacional e Competência Cultural