Colégio Americano de Cardiologia: 70 anos

As cardiopatias continuam sendo “serial Killer.” Um matador implacável, que ceifa vidas e esperanças em todo o mundo. Quando estudantes, muitos médicos tinham uma visão totalmente equivocada sobre as doenças do coração. Muitos profissionais entendiam que as cardiopatias atingiam uma faixa rica e poderosa da sociedade. Infarto do miocárdio era doença de rico. Pobre tinha verminose. As experiências acumuladas e sedimentadas, foram mudando a face do perfil científico do saber médico. O coração sempre foi um ser enganoso. Christian Billhot (1829-1894) apregoava que seria maldito o cirurgião que ousasse tocar no coração. No início do século XX, C. Chagas (1878-1934) descobria uma doença, que feria de morte as camadas mais sofridas e desiludidas da população. 

Habitantes que escondiam dores e gemidos. Os moradores de casa de “sopapo”, como diz Lupicínio Rodrigues na sua canção que tem careta de dor. A doença de Chagas matou milhões de pessoas no mundo inteiro, principalmente nas regiões onde a fome e a pobreza reinam com imensa crueldade. O médico William Howard Hay (1866-1940) afirmava que o hipertenso tivesse cuidado, pois um louco poderia querer baixar sua pressão. A atenuação da epidemia de Tuberculose e das doenças infecciosas deu ao homem fôlego para que ele vivesse muito além dos 18 anos nos primórdios da criação. 

Finda a II Guerra Mundial, que deixou um rastro de sofrimento, morte e de mutilação, surgia logo uma nova epidemia que abreviaria tragicamente vidas preciosas. Em 1947, há 72 anos, Alfred Blalok, Helen Taussing e o afro-americano Vivien Thomaz realizaram no Johns Hopkings a primeira cirurgia do coração, abrindo caminho para uma especialidade que cresceria rapidamente para cuidar de uma doença tão dolorosa e tão inesperada. A doença do coração começava onde as outras doenças terminam: a morte súbita. Em 1949, um grupo de quatro médicos criou o ACC, a maior organização médica que cuida das doenças do coração nos Estados Unidos da América. 

São 52 mil membros entre médicos e profissionais da saúde que cuidam com seriedade do coração do mundo. Em 2005, me fiz fellow desta academia. Este ano, quando esta valiosa instituição chega aos seus 70 anos, outro cearense toma lugar nesta prestigiada academia. Dr. Gentil Barreira, jovem e competente cardiologista, se escreverá nesta instituição. Sempre queria ao meu lado outros cearenses, que sorveriam mais conhecimentos. E que estes conhecimentos fossem colocados a serviço dos mais sofridos. Dos mais carentes. Dos mais desesperados, que se plantam à margem da vida a suplicar por esperança de vida. Dr. Gentil, tenha a minha mesma felicidade. Parabéns.

José Maria Bonfim de Morais
Cardiologista e teólogo