Clima de ameaças

O País vive hoje sob um clima de ameaças explícitas ou veladas, como se o povo fosse apenas um detalhe na paisagem política, sem vez e sem voz, ou pior: simples massa de manobra na mão dos novos donos do poder. Ora, esta questão do AI-5, soterrado nos escombros do passado, e apontado como remédio salvador para os saudosistas do arbítrio e da violência sem limites, costuma agora passear na boca dos arautos da salvação nacional, como se a implantação de tal loucura dependesse da vontade de um só ou de uma meia-dúzia de amigos do rei.

Como diria o “poetinha” Vinícius de Morais, “o buraco é mais embaixo”. Nenhum governante ou ministro pode falar em estado de exceção ou quebra dos ditames constitucionais baseado tão só no seu pretenso prestígio, porquanto o Brasil conta hoje com mais de 200 milhões de pessoas e figura no rol dos países democráticos. Não é uma republiqueta qualquer, sujeita ou sujeitada à vontade de pretensos donos das instituições e de suas vontades e visões de mundo ultrapassadas. 

É hora de revisar conceitos, sepultar velhos saudosismos e respeitar as regras do jogo, cujo juiz é a Constituição Federal. A fonte de todo mal é a língua, diz São Tiago em uma de suas poucas cartas. Delas saem infâmias, blasfêmias, injúrias, e toda sorte de maldades, e também, bem o podemos dizer, a arrogância, a prepotência, e um hipotético apoio de forças, com o aval não se sabe de quem, para calar a voz dos dissidentes e de aprisionar a liberdade, conquistada a duras penas e apanágio maior da Civilização. 

Cabe ao Congresso e ao Supremo lembrar aos esquecidos os juramentos à Constituição e às leis, e impor-lhes o necessário freio às línguas de trapo anunciadoras de bichos-papões. A Nação não é mais criança, nem as instituições são brinquedos. “Remember”. O Grande Ditador, de Charles Chaplin, com o globo a rodopiar em suas mãos.


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