Cazaquistão: da questionável estabilidade ao caos

Uma suposta estabilidade na ex-república soviética, o Cazaquistão, se sustentava na falta de liberdade, na massiva repressão contra movimentos populares e no desrespeito absoluto aos direitos humanos. Um quadro de exceção para a manutenção do status quo no país asiático sob os auspícios de governos ocidentais, cujo único interesse sempre foi colher os dividendos resultantes do silêncio macabro através de negócios lucrativos no país com imensos recursos naturais, principalmente do urânio, petróleo e gás. O presidente em função autorizou, durante manifestações que ocorrem neste mês de janeiro pelo país, uma avalanche de violência policial com expressa ordem de "atirar para matar" quem se atevesse a confrontá-lo nas ruas. O motor das revoltas foi a exaustão da população face a uma elite local cleptômana que ignora a penúria e o sofrimento da maioria da população, roubando-lhes qualquer chance de futuro e alguma prosperidade a despeito dos enormes recursos naturais que detém o país, mas em desfavor de seu povo e em mãos desta rapina da cleptocracia no poder. Some-se a esses desmandos, exploração de sua força de trabalho, baixos salários e ausência de programas sociais de amparo por parte dos agentes públicos. O atual presidente, Kazim Tokayeva, decepcionou a população com a continuação de um governo já carcomido até as entranhas funcionando na prática qual títere ou espécie de marionete de seu antecessor e mentor, o ex-presidente Nazarbaiev. A pre-sença russa e de seus aliados foi garantida por meio de uma "força coletiva de manutenção da paz” no país, o que pode aumentar o sentimento de hostilidade na população contra o mandatário. Como efeito das últimas manifestações, Tokayev anunciou o início da saída do contingente de forças lide-rado pela Rússia; fez críticas a seu predecessor e mentor, acusando-o de ser responsável pelo surgi-mento de uma elite de ricos e exploradores no país. Tokayev afirmou que atenderá aos anseios do povo cazaque, realizará reformas políticas, conterá a inflação e aumentará salários. Resta saber se dessas palavras resultarão mudanças reais para dar um fim à crise que se aprofunda na ex-república soviética, na qual abundam recursos naturais disputados pelas corporações internacionais e estados aliados, mas injusta na distribuição da riqueza entre o povo kazaque.

Antonio Caubi Ribeiro Tupinambá é professor da UFC | acrtupinamba@gmail.com