Bolsonaro se derrete na própria acidez

Professora Raquel Machado
Legenda: Professora Raquel Machado

Em 2018, considerando os votos válidos, Bolsonaro obteve 55% das intenções. Ao contrário do que alarma, a eleição foi legítima, não contestada, nem no primeiro, nem no segundo turno. O presidente poderia ter questionado o resultado, solicitado auditoria, diante de sua alegada sensação de já ter sido vitorioso no primeiro turno.

Não o tendo feito, ocorreu preclusão discursiva, a revelar má-fé no ressurgimento da questão anos depois. A votação válida, revelou, do ponto de vista político, a expectativa do eleitor que compareceu às urnas por um governo mais de direita, comprometido com a eficiência econômica, cujos slogans principais eram o combate à corrupção, a desburocratização, a valorização da iniciativa privada e o conservadorismo.

Imobilizado que estava pela facada que o elegeu, Bolsonaro não fez parte de sua campanha utilizando da ferramenta comum, o discurso político. Ao longo de seu governo, porém, já eleito e livre para verbalizar ideias, justamente o discurso faltante na campanha, mostra-se decisivo para sua perda de poder.

Muitos de seus eleitores desconheciam sua excessiva grosseria, seu desprezo pelas solenidades institucionais, sua inabilidade para a fala articulada, atributo essencial à liderança e à tomada de decisões. Aliada à inabilidade discursiva e à incompetência decisória, a pandemia trouxe questões com as quais o presidente não soube lidar, considerando os anseios da maioria dos brasileiros, como a compra de vacinas.

De fato, não só o presidente foi incapaz de cumprir promessas eleitorais, perdido em questões relacionadas ao ego, como a sociedade brasileira e o contexto político se alteraram na pandemia. A imagem do presidente, esfumaçada pelo desconhecido na campanha, foi se tornando evidente ao longo de inúmeras falas e comportamentos.

Percebendo sua perda de popularidade diante do desgoverno implantado, a estratégia de contestar a própria eleição se apresenta com preparação para a tentativa de convencer que se ele não for eleito não será demérito seu, mas falha do sistema.

Importa, assim, estar atento não só à falácia do ataque ao sistema no contexto e no momento inadequados, mas à clara diminuição de legitimidade ao longo de seu governo. Eventual perda da eleição não será problema do mecanismo de votação, mas sim incapacidade na reconquista do eleitor que outrora o apoiou. Quem o derrete e exclui não é a ausência do voto impresso, inexistente quando eleito, mas sua própria acidez verbal e comportamental.

Raquel Cavalcanti Ramos Machado
Doutora pela USP, professora de Direito Eleitoral e Teoria da Democracia da Faculdade de Direito da UFC, membro da ABRADEP – Associação Brasileira de Direito Eleitoral e Política