A “inocência” branca

Já começo dizendo que parto do lugar de alguém que, dentro de uma estrutura extremamente racializada da sociedade brasileira, tem uma posição de privilégio: sou branco. Não tenho orgulho disso, já que a formação da minha raça foi pautada, por séculos, na categorização de não-brancos como inferiores e passíveis de serem explorados das formas mais iníquas possíveis.

Desse modo, falo dessa raça que se considera universal, mas que também é uma construção socio-histórica, que obedece a uma “lógica” interna a ela e não a algo natural, tanto que ser branco no Brasil não significa a mesma coisa que ser branco nos Estados Unidos, por exemplo, já que raça não é um conceito puramente biológico.

Partindo daí, pode-se falar em branquitude, conceito que se estuda desde a década de 1990, com os Critical Whiteness Studies, nos EUA. Branquitude é a identidade racial branca, o lugar simbólico de privilégios dentro de uma sociedade e que se dá devido ao pertencimento (consciente ou não) à raça branca. Essa racialização incomoda, já que o branco se vê como sujeito universal, embora racialize o negro.

Essa branquitude tem algumas características, e uma delas é ser racista. Sim, para ser racista, não é preciso vestir uma túnica e capuz pontudos brancos e queimar cruzes no Deep South estadunidense: ser racista também envolve categorizar de forma valorativa outras pessoas em função de sua raça ou mesmo beneficiar-se do racismo estrutural, que, por mais que seja estrutural, não exime o branco de sua responsabilização.

Nessa perspectiva, é necessário que a opinião pública e/ou o Estado responsabilizem indivíduos que, vez após vez, são racistas, com a desculpa de que o racismo é estrutural e que uma pessoa muitas vezes, mesmo adulta, não consegue deixar de reproduzi-lo.

Essa “inocência” presumida do branco (algo negado de todas as formas ao negro) não existe, isto é, o indivíduo, mesmo não letrado racialmente, não pode alegar, em um mundo cheio de informações, que está completamente ingênuo em relação ao que diz e ao que faz. Cabe a este responsabilizar-se por discursos e ações; em outras palavras, colega branco: assuma seus B.O.’s.

Igor Mascarenhas
Educador e Sociólogo