A Copa de 1950 e o Brasil de hoje

Às 4h39 da tarde de domingo de 16 de julho de 1950, Alcides Edgardo Ghiggia escapou pela direita, ganhou do defensor Bigode na corrida e, aproveitando o espaço entre o goleiro Barbosa e a trave, balançou as redes do recém-inaugurado Maracanã. Era o gol decisivo do 2 x 1 Uruguai x Brasil.

Aos 79 minutos de jogo, no dia 8 de julho de 2014, um rapaz de 23 anos chamado André Schürrle não precisou escapar: recebeu a bola de um companheiro, ajeitou-a na canela direita e com a chuteira esquerda deu um bico para cima. A bola fez uma suave parábola, bateu na trave superior e entrou na meta. Um gol totalmente supérfluo. Era o sétimo daquele 7 x 1 Alemanha x Brasil no Mineirão.

64 anos separam os dois eventos e não só as datas são diferentes. A derrota de 1950 ganhou tom de tragédia não só esportiva como nacional. A derrota de 2014 tornou-se inspiração para memes. No jogo, o Brasil de 1950 tudo fez para vencer e talvez tenha sido vítima de sua própria avidez em fazer o que era certo, como o Édipo da peça. O Brasil de 2014 perdeu tão ansioso quanto distraído, como se o jogo fosse uma pantomima.

O Brasil dos anos 1950 tinha altos e baixos, mas, apesar de tudo, acreditava-se no futuro. Fechou a década com a presidência de Juscelino, fusquinhas, usinas hidrelétricas, bossa-nova e alguma confiança. Até ganhou a Copa de 1958 com o esquadrão de Pelé e Garrincha. A trágica derrota do Maracanã agregou a um clima de renovação.

A quase cômica derrota de 2014 inspirou um país, no mínimo, diferente. Sisudo. Tenso. Incapaz de sorrir, exceto o riso do escárnio de diminuir o outro.

Não se trata de dizer que o passado era melhor. Não o era. Disse alguém que o passado é um outro país. No caso brasileiro, essa frase pode ser interpretada quase literalmente. O país herdeiro da pantomima de 2014 não se reconhece naquele da tragédia de 1950.

Paulo Avelino

Administrador


Assuntos Relacionados