A cidade que despreza sua memória

Legenda: Gilson Barbosa é jornalista
Foto: Arquivo pessoal

Escrevo ainda contristado por mais um crime cometido contra a memória arquitetônica de Fortaleza. A cidade que maltrata suas árvores, muitas vezes cortadas e transformadas em tristes tocos sem vida fincados sobre as calçadas, é também a mesma que costuma pôr abaixo velhos casarões, outrora residências que guardavam, além da convivência habitual entre seus moradores, um pouco de nossa história. Assim acaba de acontecer, com o casarão da família Gondim, na rua General Sampaio, 1406, próximo à avenida Duque de Caxias. 

A velha edificação, que completaria 110 anos de existência em 2021, desapareceu de nossa paisagem urbana. Embora em estado de abandono, passava por processo de tombamento junto à prefeitura de nossa cidade. Mesmo assim, furtivamente, na calada da noite, foi totalmente derrubado num final de semana, talvez para escapar dos olhares e dos protestos públicos e de entidades que ainda lutam para preservar o que pouco nos resta em termos de arquitetura antiga. Perdeu-se um imóvel que poderia ter sido restaurado e transformado até mesmo em atração para a cidade.

O velho casarão guardava, segundo um documentário que foi feito há alguns anos sobre seu acervo, móveis raros, além de uma estrutura que reunia um porão e até mármore de Carrara que foi utilizado em algumas de suas dependências.

Agora, como tantos outros já destruídos na cidade que despreza sua memória, do casarão só restarão o documentário e velhas fotografias que atestarão, para sempre, o fato de um dia ter ele existido. Virou terra arrasada, transformado em mais um estacionamento. Outros belos exemplares do passado de nossa capital já viraram pó, mas isto não foi suficiente ainda para sensibilizar o poder público para a necessidade de preservar o que sobrou de nosso passado. 

Recife, Salvador e tantas outras cidades brasileiras aprenderam a valorizar e explorar turisticamente seus velhos casarios. Infelizmente, a omissão das autoridades, a especulação imobiliária e a insensibilidade com a memória histórica são a tônica em Fortaleza, que não aprende e continua a destruir, impiedosamente. Lamentável!

Gilson Barbosa 
Jornalista