Trump desiste de apoio ao Brasil na OCDE, mas dá aval à Argentina

O presidente dos Estados Unidos, que também sinalizou suporte à Romênia, afirmou que está usando um "critério cronológico" pela entrega de pedidos. Entrada no bloco econômico era esperada por Jair Bolsonaro

Legenda: Donald Trump já havia prometido, no começo do ano, ao presidente Jair Bolsonaro que apoiaria o Brasil.
Foto: FOTO: AFP

Os Estados Unidos negaram apoio a uma proposta de inclusão de novos países, incluindo o Brasil, na Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). De acordo com fontes ouvidas pela reportagem, a negativa foi dada a uma proposta apresentada pelo secretário-geral da OCDE, Angel Gurría, de discutir a inclusão de um bloco de seis novos países na organização, que teria ainda algumas nações europeias.

Em carta enviada no fim de agosto à organização, a qual a agência Bloomberg teve acesso, os EUA apoiaram apenas a entrada da Argentina e da Romênia, considerando o "critério cronológico", segundo as fontes, porque esses países haviam apresentado o pedido antes dos outros na lista, inclusive do Brasil.

Apesar de o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ter prometido apoiar a adesão brasileira ao bloco, pretendida pelo presidente Jair Bolsonaro, os EUA são contra uma ampliação maior da organização e têm se posicionado de forma contrária às ações do secretário-geral.

A negativa de entrada dos seis países teria relação com essa disputa e acabou atingindo o Brasil. Os Estados Unidos são contra a inclusão de novos países europeus ou de áreas de influência da Europa. A avaliação das fontes é que a questão pode se resolver no ano que vem, quando está prevista a escolha de um novo secretário-geral, e que, nesse momento, poderia haver o apoio formal dos EUA à entrada do Brasil na OCDE.

Em março, em visita do presidente Jair Bolsonaro aos Estados Unidos, Trump apoiou o início do processo de adesão do Brasil para se tornar membro pleno da OCDE.

Em troca do aceno, Bolsonaro fez concessões unilaterais, como dispensar a exigência de visto a norte-americanos, e começou a renunciar a tratamentos especiais destinados a países em desenvolvimento em negociações com a Organização Mundial do Comércio (OMC), etapa necessária para a adesão.

Endosso

Em maio havia expectativa do Governo brasileiro de que o apoio ao Brasil fosse formalizado em uma reunião da OCDE, o que não ocorreu. Em declaração oficial, o Governo dos EUA disse que o endosso ao Brasil seria mantido.

No fim do mês, o secretário-geral da OCDE chegou a dizer que os EUA teriam formalizado o apoio ao Brasil. "Temos uma posição diferente sobre o Brasil agora", disse.

Abertura

Nesta quinta-feira (10), o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, afirmou que o Brasil está pronto para integrar a OCDE. "Estamos vivendo uma extraordinária abertura econômica. Nós estamos prontos para integrar a OCDE. Nós e o setor privado acreditamos que isso será chave para impulsionar o desenvolvimento do Brasil", disse o ministro, durante o Fórum de Investimentos Brasil 2019.

O evento, realizado em São Paulo, é organizado pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e pela Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex). Araújo também comentou que o Brasil está se ligando a cadeias globais de valor, como nunca visto antes, citando os acordos do Mercosul com a União Europeia e com a Efta (Associação Europeia de Livre Comércio, na tradução).

"A abertura do Brasil para cadeia global de valor exige parcerias com todos investidores. Para isso, estamos com uma agenda dinâmica que pode criar oportunidade de desenvolvimento para todos", disse o ministro do Itamaraty.

O ministro apontou ainda que considera que a liberdade econômica e política caminham juntas. "Estamos convencidos de que o eixo do patriotismo é o que vai levar realmente o País para frente", afirmou Araújo.

Opinião

Célio Melo - Economista
"Há vários motivos para o Trump ter voltado atrás. Do ponto de vista externo, tem a questão de fluxo de capitais vindos da China e o nível de apoio à Venezuela. Internamente, temos o não avanço das reformas. Tudo isso nos distancia da posição dos Estados Unidos. Apesar disso, o Brasil tem muitos acordos bilaterais e multilaterais. Se o Brasil fizer as reformas, não vão faltar investimentos estrangeiros”


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