Risco de 'fugirmos com o dinheiro' é citado por sócios da Miner

Em e-mail aos clientes, sócios mencionam que ameaças a valores investidos incluíam risco de que eles fugissem com o dinheiro, além de oscilações bruscas do mercado. Gestora diz que expressão era usada em "tom jocoso"

Legenda: Investidores buscam informações com a B3 para saber se a Miner tinha recursos aplicados na bolsa

Curiosamente, um dos riscos listados pelos sócios da Miner investimentos para os aportes realizados pelos clientes era justamente o desaparecimento dos recursos. Além de oscilações bruscas do mercado, um e-mail enviado aos clientes citava a ameaça de "Eu e Rene fugirmos com o dinheiro". A mensagem se refere a Geraldo Vieira e Rene Silva, sócios da Miner.

Como o Diário do Nordeste informou na edição de ontem, um grupo de investidores cearenses teve os recursos subtraídos ao lidar com uma empresa que atuava no mercado financeiro sem ter autorização da CVM. A organização alega ter cometido erros estratégicos e que foi vítima de um golpe perpetrado por outra empresa, a JJ Invest, que teria desaparecido com R$ 170 milhões de milhares de vítimas em esquema fraudulento de investimentos.

Em nota, a Miner disse que "sempre advertiu todos os sócios dos riscos de investimentos no mercado financeiro" e que a questão da fuga era usada em "tom jocoso" "para ilustrar o quão arriscadas eram as aplicações em ações e derivativos, até pelo fato de muitos sócios questionarem tal possibilidade".

Agora, os clientes da Miner no Ceará movem uma ação para bloquear todos os bens da gestora como forma de garantir que os investimentos serão devolvidos em totalidade. As informações foram confirmadas por Fábio Timbó, advogado que representa cerca de 50 pessoas afetadas pela atividade suspeita da Miner.

Ao todo, no Estado, Timbó afirmou que a empresa paulista tinha mais de 200 clientes. O número é superior à estimativa apurada pela reportagem de ontem a partir de conversas com os investidores da Miner. Ações da empresa de São Paulo levaram às perdas de mais de R$ 10 milhões em investimentos de cearenses.

O advogado ainda contou que as iniciativas dos investidores representadas por ele, pouco mais de 50, visam bloquear todos os bens da Miner. Além disso, todas as instituições relacionadas ao mercado de investimentos estão sendo notificadas para que o processo seja oficializado e explicações sejam dadas.

"Neste momento em que as pessoas foram tomadas de surpresa, elas estão tentando reaver o capital aportado com o respectivo rendimento. O objetivo é minimizar os prejuízos. Consequentemente, no meu entendimento, o que deve ser feito é entrar com medidas de urgência, com o objetivo de bloquear os bens da empresa e já estamos fazendo isso", explicou Timbó.

"Isso foi pensado pelo poder de cautela, analisando casos análogos ao da Miner, como o da JJ Invest, em que as pessoas foram iludidas, acreditando que existia um negócio regular", completou.

Explicações

A partir de agora, o grupo de investidores também está movendo esforços para buscar explicações com a B3, Bolsa de Valores brasileira, para saber se a Miner realmente possuía recursos investidos; com a Receita Federal, para pedir a quebra de sigilo bancário e telefônico dos sócios; e com a Comissão de Valores Mobiliários, para que medidas oficiais sejam tomadas em relação ao caso.

"Não houve nenhuma movimentação no mercado para justificar uma perda de 75%, isso considerando se a Miner estivesse operando dentro da legalidade e com transparência", apontou Timbó.

Para o advogado, a atuação da Miner Investimentos escondia um esquema de pirâmide disfarçado de gestora de investimentos. "Eles estavam cometendo um crime contra o sistema financeiro, crime contra economia popular, crime no mercado de capitais e crime contra a ordem econômica e estelionato. Era na verdade uma pirâmide", afirmou.

Em nota, a Miner Investimentos reforçou que nunca teve atitudes desonestas. "Tanto é verdade que os valores devidos aos investidores estão sendo pagos. Se fosse golpista, os valores devidos teriam desaparecido das contas da empresa", disse.


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