Queda da taxa de juros faz investidores buscarem retorno na Bolsa

Com a Selic nos menores patamares históricos e perspectivas de novos cortes até o fim deste ano, aplicações em renda fixa vêm perdendo atratividade, enquanto a Bolsa de Valores de São Paulo bate recordes

Mesmo com a economia demonstrando fraqueza e com sucessivas revisões do Produto Interno Bruto (PIB) para baixo, a Bolsa de Valores vem batendo recordes neste ano. O Ibovespa, principal índice da Bolsa brasileira, ultrapassou pela primeira vez a barreira dos 100 mil pontos e o número de investidores pessoas físicas superou a inédita marca de 1 milhão. 

Embora o lucro das empresas ainda esteja distante do potencial, as recentes quedas da taxa básica de juros (Selic) e as projeções de outros cortes até o fim do ano têm feito os investidores migrarem para ativos mais risco, em busca de maiores retornos.

Com a queda da Selic, investimentos de menor volatilidade e menor risco, como as aplicações em renda fixa, acabaram ficando menos atrativos. E, na avaliação de especialistas, é muito pouco provável que essas aplicações voltem a apresentar rentabilidades superiores a dois dígitos, como ocorria até poucos anos atrás. Com isso, as apostas estão voltadas para o mercado de ações, que sofreu nos anos de recessão, mas deve se beneficiar dos cortes nos juros.

“A renda fixa já está com a rentabilidade bem baixa e a tendência é que fique ainda menos atrativa com a queda da taxa de juros. Então, para ter mais retorno, os investidores e gestores de recursos terão que diversificar”, diz o consultor de investimentos Elísio Medeiros, sócio da Conceito Investimentos. “Essa alta da Bolsa está relacionada ao movimento dos juros e com melhores perspectivas para as empresas”, diz.

Mercado de capitais
Embora a possibilidade de queda da Selic, que desde março do ano passado está em 6,5% ao ano, já fosse esperada pelo mercado há alguns meses, a sinalização do Banco Central de que fará novos cortes até o fim deste ano, a depender do avanço das reformas, já produziu efeitos no mercado de capitais, visto que os movimentos na bolsa costumam antecipar os efeitos reais na economia.

“O que a gente observa desde o ano passado é que já está acontecendo uma migração da renda fixa para a Bolsa”, diz Medeiros. “Mas a expectativa de queda da taxa Selic também é boa para as empresas, porque reduz os custos com endividamento, ajuda a renegociação e rolagem de dívidas, e impulsiona os investimentos”, diz ele.

Apenas para efeito de comparação, enquanto o mercado espera que o Banco Central feche 2019 com uma taxa de juros de 5,75% ao ano, no que seria o menor patamar da série histórica, hoje, a taxa de juros na Europa é zero e nos Estados Unidos, é de 1,25% ao ano.

Dividendos
Um das vantagens de se investir em ações de empresas é o pagamento de proventos aos acionistas. Além da possibilidade de lucrar com o rendimento proporcionado pela valorização das ações, o investidor recebe, periodicamente, dividendos das empresas. 

E, em alguns casos, é possível encontrar companhias que pagam mais do que aplicações em renda fixa. “Para quem tem um perfil conservador, é recomendável ter uma carteira com empresas que tenham lucros recorrentes e os distribuam com os acionistas”, diz Medeiros.

Outra opção, para quem quer estar exposto à renda variável mas não se sente seguro em selecionar ativos, são os fundos de investimento, que podem combinar ações, títulos de renda fixa e moedas estrangeiras.

Recorde 
Com o movimento de investidores em busca de maiores rentabilidades, a Bolsa de Valores de São Paulo (B3) recebeu em abril 63 mil novos CPFs, chegando a 1.046.244 investidores pessoa física, número 58% superior ao registrado em abril de 2018, quando havia no País 663 mil CPFs cadastrados na B3. Entretanto, apesar da Bolsa ter chegado à marca de 1 milhão, esse número ainda representa uma fração da caderneta de poupança, que hoje reúne 117 milhões de clientes no País, de acordo com dados da B3. O que revela o potencial de crescimento do mercado acionário.

Renda fixa
De acordo com um boletim da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima), as rentabilidades dos títulos públicos federais, negociados pelo Tesouro Direto, já haviam sido impactadas, em maio, pelas apostas do mercado de uma nova redução da Selic. “No curto prazo, a renda fixa tem uma perspectiva de queda de juros, o que é interessante para quem tem operações em papéis pré-fixados”, diz o economista Ricardo Coimbra. “Está acontecendo um reposicionamento nas taxas de juros DI (Depósito Interfinanceiro), e as pessoas vão buscar outras opções”, afirma.

“O processo de recuperação da atividade econômica ainda está muito lento, mas há uma perspectiva positiva para o encaminhamento da reforma da Previdência e que isso possa gerar uma boa economia para o Governo nos próximos 10 anos, aliviando as contas públicas do ponto de vista fiscal. Assim, com a inflação abaixo da meta e a aprovação das reformas, é possível haver novos cortes dos juros já na próxima reunião do Copom”, diz Coimbra.

Quero receber conteúdos exclusivos sobre negócios

Assuntos Relacionados