Potencial de consumo do Ceará em 2020 deve retroceder oito anos

Abalo da pandemia sobre orçamento das famílias fez estimativa de recursos para compras voltar a patamar de 2012 no Estado, revela levantamento IPC Maps 2020. Ainda assim, participação do Ceará no consumo nacional cresce

Legenda: Setor relacionado à habitação lidera entre as categorias que devem movimentar mais recursos no Estado neste ano
Foto: Thiago Gadelha

O volume do mercado consumidor cearense em 2020 deve retroceder oito anos e voltar a patamares observados em 2012. Segundo o IPC Maps 2020, levantamento da IPC Marketing Editora, cerca de R$ 135,5 bilhões devem circular no comércio local neste ano, cifra 2,05% menor que em 2019 (R$ 136,3 bilhões).

A queda no volume de recursos movimentados através do consumo das famílias se deve à crise provocada pela pandemia do novo coronavírus. Marcos Pazzini, sócio da IPC Marketing Editora e responsável pelo levantamento, ressalta que este é um ano atípico. "Com essa perda enorme na economia, são oito anos perdidos", afirma.

Um fator que também pode ser fonte de preocupação nos próximos anos é ritmo de fechamento de empresas no Estado. Conforme o levantamento, quase 100 mil empresas fecharam no último ano no Ceará. Atualmente, existem cerca de 599,2 mil negócios registrados. Pazzine esclarece que o encerramento acentuado de atividades pode comprometer o mercado de trabalho local e a renda das famílias.

"Foi uma queda de 14%. Cerca de 53 mil dessas empresas fechadas eram do comércio. O consumo é a parte da renda que gira a economia. Via de regra, a renda depende a maior parte do trabalho. Então, essa estatística de fechamento causa uma certa preocupação", alerta Pazzini.

Outro agravante é a própria composição social do Estado, em que as camadas da base da pirâmide representam a maioria da população. No Ceará, cerca de 73,2% dos domicílios se encontram na área urbana. Destes, 86,6% estão classificados entre as classes C e D/E.

"Essa população é a que mais sofre com qualquer ação, pois a dependência do emprego é maior. Com certeza, estão em posição desfavorável", ressalta. O responsável pela pesquisa ainda lembra a relação inversamente proporcional entre as classes mais vulneráveis e o potencial de consumo.

"Quanto maior a quantidade de domicílios na base, menor é o consumo. Se tiver aumento do tamanho das camadas só de baixa renda, temos uma migração social negativa. Domicílios que já estiveram acima perderam poder de compra", detalha.

Comprometimento

Por historicamente ter uma média de renda mais baixa que em outras regiões do País, as famílias cearenses têm grande parte de seus orçamentos comprometidos com as despesas essenciais, como alimentação e habitação.

Conforme o IPC Maps 2020, o segmento de habitação lidera entre as categorias que devem receber mais recursos neste ano, com os previstos R$ 27,2 bilhões. Também são prioridade para as famílias cearenses outras despesas (R$ 20,5 bilhões), alimentação no domicílio (R$ 14,4 bilhões), veículo próprio (R$ 12,8 bilhões) e alimentação fora do domicílio (R$ 6,4 bilhões).

"Quanto maior a concentração nas camadas de renda mais baixas, maior o comprometimento ao que é essencial, essas despesas acabam pesando muito no orçamento. Com o orçamento comprometido com esses itens, não sobra nada ou sobra muito pouco para os bens de consumo, para os itens de desejo", destaca Marcos Pazzini.

Com uma margem muito pequena no orçamento para fazer outras compras, ele lembra a importância do marketing para incentivar o consumo e da facilitação do acesso ao crédito para possibilitar aquisições que não seriam possíveis à vista.

"Esses itens de consumo essenciais diminuíram o seu peso na cesta de compra do Ceará. O comprometimento com essas despesas recua um pouco, principalmente a participação de gastos com supermercado, e pode ser que sobre um pouco mais. É preciso fazer um trabalho balanceado entre o poder de compra limitado e esse dinheiro a mais sobrando, para fazê-lo circular no comércio local", acrescenta o sócio da IPC Marketing Editora.

Participação nacional

Apesar do recuo drástico no potencial de consumo neste ano, Pazzine ressalta que a participação do Ceará em relação ao restante do País aumentou e é o melhor nos últimos dez anos. Segundo ele, isso ocorreu porque o consumo do Estado aumentou enquanto o de outras unidades da federação diminuíram. Atualmente, o índice IPC Maps do Ceará é calculado em 2,98 - o décimo do Brasil e o terceiro do Nordeste.

A colocação é a mesma observada no ano passado. A manutenção da posição, para Pazzine, concomitante ao aumento da participação estadual é um ponto positivo.

"Efetivamente, o Estado tem sofrido prejuízos, mas um pouco menores que outras unidades da federação e mesmo que a média nacional, que aponta queda de 5,39% no consumo, a maior retração desde 1995".

Fortaleza também manteve a sétima colocação neste ano frente a outras capitais e ainda deve obter um crescimento de 5,45% no volume de recursos a serem circulados frente ao ano passado, chegando à cifra de R$ 59,9 bilhões, segundo o IPC Maps.

Por concentrar boa parte da atividade econômica, Fortaleza também é o município que com o maior potencial de consumo no Ceará, com índice de 1,34, seguido por Caucaia (0,10), Juazeiro do Norte (0,09), Maracanaú (0,07), Sobral (0,06), Crato (0,04), Maranguape (0,03), Iguatu (0,03) e Itapipoca (0,02).

No sentido contrário, Granjeiro tem o menor mercado consumidor neste ano, devendo movimentar apenas R$ 39 milhões. Ainda registram baixas movimentações no comércio Potiretama, Baixio, Moraújo, Ererê, Guaramiranga, Pacujá, General Sampaio, Tarrafas e Senador Sá.

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