'Não somos contra a mudança, mas que ela seja mais verde'

O embaixador concedeu entrevista exclusiva à página de Gestão Ambiental, em Fortaleza

Legenda: "Houve um momento, há uns anos, em que alguns podiam ter dúvidas sobre a realidade das mudanças climáticas. Mas isso quase desapareceu, até nos Estados Unidos e na China", afirmou Laurent Bili
Foto: Foto: Kiko Silva

Qual foi o legado, para a França, da COP21?

Respondendo como diplomata, foi a primeira boa notícia, no âmbito internacional, em muito tempo, e objeto de satisfação. Ao mesmo tempo, não é só uma obra só da França, mas um momento da comunidade internacional tomando conta do desafio maior, especialmente aqui no Brasil. Eu já tive diversas oportunidade de agradecer à autoridade brasileira, por meio da ministra Izabella Teixeira, porque, realmente, sem a cooperação daqueles maiores, como o Brasil, o êxito não seria possível. É um orgulho, mas um orgulho modesto, sabendo que também não é o fim da história.

Em relação ao dia a dia do povo francês, ficou algo concreto neste pós-Conferência?

A transformação do cidadão francês e do parisiense tem poucos anos. Eu, como diplomata que morou no exterior, conheci Paris como uma cidade de carro e voltei ao país da bicicleta. Uma transformação profunda na maneira de viver a cidade que é muito impressionante, em muito pouco tempo e acho que essa transformação da realidade foi acelerada pela visibilidade da COP21, que faz com que cada um dos atores se sinta parte desse desafio. Não é só o cidadão, mas as coletividades locais que fazem esforços para transformar-se e também para cooperar com as cidades. As empresas maiores, que contribuíram, no passado, para a emissão de gases de efeito estufa, agora estão dando mais importância às energias renováveis. Também vimos os fundos de investimento dizendo que saíram de setores que têm efeitos negativos para o meio ambiente, um sinal importante.

Essa é uma postura que se espalha pelo continente europeu ou ainda há muita resistência à mudança?

Foi muito importante para a União Europeia conseguir alcançar um consenso dentro dela mesma. Sabemos que alguns atores, inclusive a Alemanha, não têm os mesmos constrangimentos que a França tem, da importância nuclear na produção de energia. Mas esse tipo de negociação fez amadurecer muitos países. Não quer dizer que acabou o esforço. Temos que trabalhar. Mas a existência do consenso foi um passo muito importante para os países que têm dúvidas sobre essa transição.

Até que ponto as crises de ordem econômica e migratória interferem nesse processo?

Pessoalmente, eu não acredito em consequências neste âmbito. Houve um momento, há uns anos, em que alguns podiam ter dúvidas sobre a realidade das mudanças climáticas. Mas isso quase desapareceu, até nos Estados Unidos e na China. Desafios em outras frentes não podem interferir. Eles são também importantes, mas não são do mesmo tamanho que o desafio das Mudanças Climáticas. Vou utilizar, uma vez mais, a fórmula do Ban Ki-moon, que disse que não temos plano B porque não temos Planeta B. Os outros problemas, mesmo que sejam muito sérios, são de uma outra natureza. A questão da imigração ilegal é um desafio porque exige uma adaptação permanente.

Quais são as possibilidades de transferências de recursos ou tecnologias da União Europeia para auxiliar outros países a enfrentar o desafio climático?

Faz parte dos compromissos da Conferência de Paris o "Mobilise your City", pelo qual assumimos ajudar 100 cidades, de diferentes países em desenvolvimento, a encontrar as suas opções para os problemas de mobilidade urbana, o que inclui certos projetos com as coletividades locais; e o compromisso de fazer mais de 100 bilhões de dólares de investimento em energias renováveis em países em desenvolvimento. O papel da presidência da COP21, que será da França até a COP22, é fazer com que a Conferência de Paris não seja o fim, mas o começo, e que mantenhamos a mobilização de todos para que os compromissos sejam efetivos. Entre as atribuições dos embaixadores da França está a presença nas conferências, apoio aos poderes locais para manter esse dinamismo, inclusive com o Marrocos, que vai tomar a próxima presidência, e associá-los até a COP22.

Quais seriam os principais desafios para o desenvolvimento das cidades com menores emissões?

Temos que aceitar uma coisa simples, que as mudanças urbanas fazem parte da vida moderna. O objetivo não é ficar contra a mudança, mas fazer com que seja mais verde, mais sustentável e tornar as cidades mais agradáveis para viver, ou seja, esse desafio se torna uma vantagem para o cidadão e, para isso, o transporte coletivo tem que ser mais agradável. O conjunto do transporte precisa ser mais fácil, mais barato. Tem muita cidade que já tem e pode compartilhar as suas experiências. Eu falei, um pouco antes, com o senhor prefeito de Fortaleza, que disse que depois de conhecer, em Paris, o Autolib (sistema de carros elétricos compartilhados), está pensando em fazer uma pequena experiência na cidade. Uma coisa interessante, mas interligado com o sistema de transporte público. Ou seja, compartilhar o carro é bom, é melhor do que ter um carro pessoal e usar sozinho, mas que não seja uma alternativa de transporte público, mas algo que facilite a vida do cidadão como complemento ao transporte público. A bicicleta participa também desse esforço e é ainda mais verde. E melhor para a saúde também.

O diretor da AFD, Laurent Duriez, me concedeu uma entrevista, no ano passado, sobre o interesse da França em investir em Mobilidade Urbana, Energias Renováveis, Gestão de Recursos Hídricos e de Resíduos Sólidos no Nordeste do Brasil. Houve algum avanço neste sentido?

Ainda não é possível falar de maneira concreta sobre esses investimentos. Temos bons projetos, parcerias com agências de fomento regional, na questão do desenvolvimento integrado das cidades, especialmente na parte das energias renováveis, integrando o desenvolvimento à questão da educação, mobilidade urbana, saneamento, para melhoria do ponto de vista global. Também temos projetos para Mudança Climática e Adaptação, como o projeto com Iclei com Fortaleza, que inclui estudos que contemplam danos. Vamos, na cooperação lateral, ver como podemos dar aos governos toda a estrutura para isso.

Considerando a II Jornada sobre Cidades e Mudanças Climáticas, primeiro evento pós-COP21 no Brasil, o senhor acredita que há disposição para tocar esse trabalho adiante?

A importância está, sobretudo em que o atores locais continuem tendo visibilidade. Eles realmente têm, todos os dias, desafios a superar. Não tenho dúvida de que esse evento mantém a mobilização do Brasil. Nos próximos dias, vamos ter também um evento em Manaus e outro, no Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro. As coletividades locais estão na primeira linha e vai ser realmente muito importante para que os objetivos da Conferência de Paris sejam alcançados. Eu falo como representante da Presidência da COP21.

Foi considerado um avanço a participação e compromissos assumidos por alguns países na COP21. Mas sabemos que o governo representado naquele momento pode não ser o do futuro. Isso é um risco?

A primeira coisa, como a senhora destacou, é o fato de que tivemos 187 compromissos com INDC e isso já é algo que, há alguns anos, sem falar de Copenhague, não era pensado. Um fato muito importante é a presença massiva, em Paris, além dos atores governamentais, da sociedade civil, das ONGs, das empresas, das entidades locais. Então, mesmo que um interesse cambial, talvez o comércio, estejam menos convencidos, o dinamismo desses atores locais já vai participar do resultado e eu não tenho dúvida de que, no final, mesmo os que possam ter menos entusiasmo, digamos, vão se dar conta das evidências científicas de que temos que agir.

Sabemos que os desafios são diferentes nas peculiaridades de cada país. Aqui no Brasil ainda enfrentamos alguns bem grandes, como pôr fim aos lixões. No momento que uma agência de financiamento, como a AFD, decide apoiar a solução de problemas como esse, também está disposta a ajudar no processo necessário para atingir o objetivo final?

Isso inclui a formação da mentalidade. Mesmo num país que possa parecer mais adiantado, essa questão de selecionar o lixo demorou muito para ser realmente uma coisa efetiva. Um combate que nunca acaba. Porque a preguiça natural faz com que, às vezes, tenhamos que tomar decisões fortes. No mês de abril, na França, por exemplo, vai ser proibida a distribuição de bolsas de plástico gratuitas. Isso já é uma revolução. Começamos lentamente com as bolsas que se pode reutilizar para responsabilizar as pessoas. Mas, mesmo assim, não é suficiente. Ao lado da educação, há um momento em que o poder público tem que mudar os costumes, a maneira de viver das pessoas com mais autoridade e tem que fazê-lo porque o custo sobre o meio ambiente, dos seus produtos, não é razoável. O começo pode ser um pouco difícil, mas a gente pode ver muito rapidamente os efeitos positivos de ter uma cidade mais limpa porque o pior que se pode ver numa cidade é lixo plástico por todos os lados. Na França houve uma mudança gradual. Já passamos para outros paradigmas.

Fique por dentro

Representante da Presidência da COP21

O embaixador da França no Brasil, Laurent Bili, esteve em Fortaleza, onde participou da II Jornada sobre Cidades e Mudanças Climáticas, e se reuniu com o governador Camilo Santana; o prefeito Roberto Cláudio; e o reitor da UFC, professor Henry de Holanda Campos. Tudo isso acompanhado pelo diretor da Agência Francesa de Desenvolvimento (AFD) no Brasil, Laurent Duriez; do cônsul-geral da França, em Recife, Bruno Bissonda; e da conselheira para Desenvolvimento Sustentável da Embaixada, Françoise Méteyer-Zaldine. Na agenda, o papel diplomático de levar Acordo de Paris, resultado da COP21, aos agentes locais, e viabilizar apoio lateral às cidades da região.

*Embaixador da França no Brasil