Mercado de trabalho passará por mudanças mais rapidamente

Após a pandemia do novo coronavírus, especialistas dizem que empregadores e empregados vivenciarão novas formas de produzir e novas relações de trabalho. Habilidades comportamentais serão mais importantes

Escrito por hugo.renan@svm.com.br,

Negócios
Legenda: Outras formas de produção, como o home office, devem se intensificar no período após a pandemia

O mercado de trabalho deverá passar por mudanças mais rapidamente após a pandemia do novo coronavírus. Diversas novas formas de produção, como o teletrabalho (home office), e variadas relações trabalhistas ganharão mais importância dentro das empresas. Além disso, empregadores darão mais atenção às habilidades comportamentais e competências subjetivas, chamadas soft skills, avaliam especialistas no mercado.

"Pós-pandemia, acreditamos que as soft skills vão continuar importantes. A capacidade de aprender e se adaptar aos novos cenários e lidar com as ferramentas digitais vão ser chaves. Cada vez mais vamos ter mais processos seletivos digitais ou híbridos, uma tendência que já estava ocorrendo e que vai ser acelerada no pós-pandemia. Aprendemos que é possível se comunicar, ser produtivo e tomar decisões virtualmente", avalia a diretora de Operações da consultoria Lee Hecht Harrison (LHH) Nordeste, Mariângela Schoenacker.

Para Bernadete Pupo, coach de carreira e consultora de Recursos Humanos, não é de hoje que as relações de trabalho vêm mudando e se ajustando, de acordo com as tendências vividas pelas empresas. "Aquele padrão de emprego tradicional, com muito tempo de empresa, com carteira assinada e todos os demais benefícios, vem perdendo espaço. A flexibilização do trabalho, a terceirização, a prestação de serviços, o freelancer já eram uma realidade antes da pandemia. Os setores de trabalho já vinham modernizando o sistema de produção de produtos para reduzir tempo e custo".

Segundo Silvio Almeida, advogado e coordenador da área trabalhista da R. Amaral Advogados, é difícil fazer previsões para o cenário de pós-pandemia. No entanto, ele ressalta que já existe um movimento de mudança nas relações de trabalho, que ficou acentuado com a crise do novo coronavírus.

"É cada vez menor essa questão da formalização. Estão crescendo muito as novas relações de trabalho que, querendo ou não, são precárias para os trabalhadores. A justiça já está se movimentando para entender essas relações e definir regras mínimas".

De acordo com Erle Mesquita, analista do Mercado de Trabalho do Instituto de Desenvolvimento do Trabalho (IDT), os postos de trabalho estão cada vez mais sendo remunerados pontualmente.

"Dessa forma, os trabalhadores ficam desprotegidos. Embora o trabalho intermitente ainda seja muito residual, a gente tem visto que o trabalho assalariado está perdendo participação. E com uma crise como essa, as pessoas muitas vezes não têm suporte algum".

Mesquita também diz que outras formas de produção, como o home office vão se intensificar. "Essa é uma realidade que acaba sendo um grande desafio. Isso já acontecia antes da pandemia. Cada vez mais não tem separação do trabalho e não trabalho estando dentro de casa", opina.

Mudanças

Para Pupo, o fato é que muitas empresas foram pegas de "calças curtas" durante a pandemia, pois não estavam tão preparadas para o modelo de trabalho remoto e tiveram que improvisar essa e outras alternativas às pressas.

"Por outro lado, nem todos os trabalhadores também contam com uma infraestrutura em casa para realizar o seu trabalho e assim, tiveram que dar um jeito para driblar, trabalho, casa e família. Não há dúvida de que o home office e o teletrabalho, impulsionado pela força da necessidade não planejada, vem rompendo paradigmas, já com evidente tendência pré-pandemia", diz.

Segundo ela, tanto empregados quanto empregadores começam a enxergar os benefícios desse modelo e a se estruturar para ampliar essa prática após pandemia.

"É um caminho sem volta, pois o home office tem se mostrado efetivo. A rotina, impulsionada pelo avanço da tecnologia, também se tornará mais tecnológica. A busca por soft-wares para videoconferência, plataformas de reuniões virtuais, certamente, têm trazido novos aprendizados, sendo que o ganho maior fica por conta da gestão do tempo, da autodisciplina e consequentemente do aumento da produtividade", aponta.

Híbrido

A consultora diz que, para estimular o engajamento entre as pessoas, a tendência é a maioria das empresas adotar a prática do trabalho híbrido, "designando alguns dias presenciais e outros à distância".

"Mesmo com a flexibilização das leis trabalhistas, entendo que ainda teremos um caminho a percorrer para regulamentar responsabilidades e novos modelos de contratação, pela ausência de previsão legal frente a um fenômeno tão excepcional como a pandemia do coronavírus".

Schoenacker também prevê que as empresas devam começar a trabalhar de maneira híbrida. "Elas vão começar trabalhando presencialmente, mas vão incorporar outras ferramentas. A pandemia está acelerando isso. As empresas que eram mais analógicas vão começar a trabalhar de maneira híbrida", reforça.

Para Silvio Almeida, é preciso haver mudança de mentalidade dos empregadores. "Ainda existem padrões de empresas em que o chefe precisa ver e ter a sensação de que o trabalho está produzindo. A gente está rodando em um nível de produtividade muito alto neste momento", aponta o advogado trabalhista.

Almeida avalia que a experiência que muitos negócios estão tendo com trabalho remoto deve ampliar a perspectiva de gestores. "Isso vai mostrar para as empresas que o home office funciona em alguns casos. Precisa ser definido um horário de trabalho, uma linha. Tem que haver também essa troca, essa pessoalidade, que em alguns casos se perdem no home office", pondera.

Novas perspectivas

A nutricionista Carine Costa já percebia essas mudanças no mercado de trabalho antes mesmo da pandemia. Ela conta que os profissionais que promoviam seus serviços nas redes sociais estão tendo mais êxito neste momento de crise que outros que não tinham.

"Eu acho que a tecnologia auxilia. O nutricionista de mais sucesso já tinha que ter uma rede social, um contato maior com o paciente. Esse atendimento online e o uso da internet aumentaram a necessidade da gente se reinventar", destaca.

A pandemia do novo coronavírus trará novos conceitos de trabalho e novas formas de produção, com destaque para o home office e trabalho híbrido, como produção em casa e na empresa.