'Investimento privado será pilar da recuperação do turismo no Brasil'

Cearense, o secretário do Ministério do Turismo, Lucas Fiuza, lembra que o Estado é uma potência natural, mas acredita que insegurança jurídica é o principal gargalo no turismo local

Legenda: Lucas Fiuza destaca potencial cearense de recuperação no setor turístico
Foto: Paulo Alberto

O Ceará possui uma vocação turística forte e atrativos naturais que fazem do Estado um potencial indiscutível. Mas oferecer maior segurança jurídica é um ponto fundamental para a tração de investimentos na área do turismo. A avaliação é do turismólogo cearense e novo secretário Nacional de Atração de Investimentos, Parcerias e Concessões do Ministério do Turismo, Lucas Fiuza.

Um dos setores mais impactados pela crise provocada pelo coronavírus em todo o mundo, o turismo precisa de fôlego. No Ceará e no restante do Brasil, isso deve vir a partir da oferta de crédito, do investimento privado e do turismo doméstico, que deve ser ainda mais fortalecido em um momento no qual o turismo internacional deve ficar um pouco mais tímido. "No mundo inteiro, todas as organizações ligadas ao setor estão identificando que o turismo no âmbito local vai ser o primeiro a retomar e vai ser uma alavanca importantíssima na retomada das atividades", pontua Fiuza.

Você é cearense e sabe que o Estado possui vocação turística forte. Como você avalia o turismo local no contexto pós-coronavírus?

O coronavírus atingiu o mundo inteiro, não foi só o Ceará. Na retomada, vai ter que ser examinada a eficácia de cada destino e eles terão que atender a medidas de segurança. Precisaremos melhorar o ambiente de negócios para que os investidores voltem a ter confiança. Todos têm que aguardar as questões sanitárias e de saúde e quando tivermos esse sinal verde, quem tiver as melhores condições de atração de investimentos vai sair na frente, porque o mercado está reprimido.

Você acredita que o Ceará, no pós-coronavírus, vai ter condições para essa atração de investimentos? Como deve ser criada uma ambiência para isso?

O Ceará tem tudo. Tem um potencial turístico imenso, uma vocação indiscutível. O obstáculo sempre foi o mesmo: o da insegurança jurídica. A dificuldade dos grandes investidores entrarem no Ceará é uma realidade e a gente tem assistido a isso ao longo dos anos. Tiveram algumas ações importantes, como a concessão do aeroporto (Pinto Martins) e o aumento do número de voos. À medida que as coisas retornarem, o aeroporto vai ser uma peça fundamental nisso.

Eu vejo a segurança jurídica como peça-chave. E como pilar central disso está a questão do meio ambiente. É preciso clareza nas regras. Você vê que no Ceará está acontecendo a discussão do Zoneamento Ecológico-Econômico (ZEE) mais uma vez, algo que já ocorreu no passado e está andando há bastante tempo. Isso gera incerteza.

O Parque Nacional de Jericoacoara foi incluído nas concessões do Governo Federal no ano passado e alguns especialistas avaliam que existe um risco de degradação. Qual é a sua avaliação sobre isso?

Eu acho que a concessão é uma coisa positiva. O Parque das Cataratas do Iguaçu é um case de sucesso indiscutível. Não tem que ter receio, porque existe profissionalismo, é um pessoal supercompetente que está fazendo a estruturação dessas concessões e o mundo inteiro já utilizou esse mecanismo de gestão.

E outra coisa: tem que lembrar que isso é uma concessão, então a partir do momento que a concessionária não cumpre todos os requisitos e não atua com a competência necessária, o poder público serve para fiscalizar e vai atuar quando necessário.

A gente vive uma crise na qual um dos setores mais impactados foi o do turismo. Em relação ao Brasil, qual a saída para o turismo no pós-pandemia?

Nós estamos trabalhando com uma linha de crédito emergencial. Foi uma medida que o presidente Bolsonaro e o ministro do Turismo, Marcelo Álvaro, entenderam ser muito importante e eu concordo, porque nós estamos falando de uma interrupção total do fluxo de caixa do setor. Não tem mágica. É preciso fôlego. E o crédito é determinante para evitar o desmonte do setor, porque sem sobrevivência, não há retomada. Na retomada, o crédito dá aquele 'start', dá aquele fôlego de recomeçar a girar a máquina.

Mas eu acredito que o pilar central da retomada será o investimento privado, porque com ele a gente consegue uma alavancagem de desenvolvimento muito mais rápida e eficaz, com uma gestão descentralizada e recursos que independem dos pagadores de impostos. O câmbio atual está favorável para investidores internacionais investirem no Brasil, então a ideia é que a gente desenvolva o turismo nacional, mas recebendo capital externo. É uma estratégia que nos parece interessante.

Quais os gargalos para além do coronavírus que o turismo no Brasil enfrenta hoje? Você falou da insegurança jurídica. O que mais precisa melhorar?

No Brasil, várias medidas importantíssimas estavam sendo tomadas pelo governo, como a questão do capital estrangeiro em empresas aéreas. Então a gente já estava numa crescente muito boa para ter um aumento no número de empresas aéreas, dos voos low cost, da conectividade de todo o mercado e isso é importantíssimo para o desenvolvimento do turismo.

A gente usa uma analogia que diz que turismo sem voos, sem aeroporto, é como um shopping center sem estacionamento, então a gente precisa dessa conectividade. Também estamos trabalhando em um projeto muito arrojado para o turismo rodoviário. A gente tem uma malha expressiva e estamos trabalhando nisso.

É interessante você falar desse fortalecimento do turismo rodoviário porque o que parece é que a gente vai passar um tempo sem turistas internacionais. Você acredita que o turismo doméstico vai contribuir com essa retomada?

O turismo doméstico sempre foi o carro-chefe da indústria do turismo no Brasil, então a ideia é focar nele. É uma tendência mundial. No mundo inteiro, todas as organizações ligadas ao setor estão identificando que o turismo local vai ser o primeiro a retomar e vai ser uma alavanca importantíssima na retomada das atividades turísticas. E aqui no Brasil nós temos atrativos locais fantásticos.

Tem quem avalie que o turismo de negócios está passando por uma mudança quase definitiva por conta do coronavírus, que as viagens devem ser resumidas a reuniões virtuais. Você acredita que é a derrocada do turismo de negócios?

Bom, a gente não tem como prever como vai ser o desdobramento no longo prazo dessa adaptação comportamental que a pandemia impôs a todo mundo com as videoconferências e eventos remotos. Eu, particularmente, não acho que isso vai durar para sempre ou que irá se consolidar como uma tendência.

Mas certamente nós teremos um período de transição até voltar à normalidade. O que é interessante é que essa solução das videoconferências, essa cultura de fazer a coisa remota também não vai embora, mas principalmente quando você fala em negócios, a reunião presencial tem um peso na negociação, no fechamento de negócio, então eu acredito que vai ser uma coisa temporária. De jeito nenhum eu acho que essa é a derrocada do turismo de negócios.

O turismo de negócios tem um tíquete mais alto do que o turismo de lazer, ele é fortíssimo no mundo inteiro e eu acho muito pouco provável que no longo prazo ele desapareça ou mude a sua natureza. Meu palpite é que vai aumentar o que era presencial agregado ao virtual.

O Brasil ganhou repercussão internacional pelo número de casos e de óbitos e, de certa forma, pelo modo como a pandemia vinha sendo tratada pelo governo. Em que medida você acha que isso pode prejudicar a atração de investimentos no turismo para o País?

O investidor profissional analisa os dados com sinceridade e com honestidade para ver o que está acontecendo e se ele for analisar a performance do Brasil, até agora na pandemia, verá que ela na realidade está exemplar. A proporção de óbitos por milhões de habitantes, de casos e o número de recuperados no Brasil está plenamente satisfatório. Na realidade, os investidores com quem nós temos contato têm reconhecido a boa performance do Brasil nesta gestão.


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