Há risco de faltar feijão na mesa com redução das plantações no Brasil e no Ceará?

No Estado, o encolhimento da área plantada foi de quase 40%; entenda a situação

Escrito por Bruna Damasceno, bruna.damasceno@svm.com.br

Negócios
Grãos de feijão nas mãos de um agricultor
Legenda: O feijão-carioca deve ficar escasso e, consequentemente, mais caro
Foto: Honório Barbosa / SVM

O Ceará sofreu redução de 39,15% das plantações de feijão nos últimos 40 anos. Dados Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) mostram que a área cultivada caiu de 595 mil hectares, em 1981 e 1982, para 362,3 mil hectares em 2021/2022.

O questionamento que se levanta, portanto, é se há risco de desbastecimento do grão no mercado regional. O número considera as três safras do ano. 

Essa é a segunda menor extensão das últimas quatro décadas no Estado, atrás apenas do período de 2012/2013, quando a área plantada foi de 341,1 mil hectares. Para especialistas, todavia, não há possibilidade de faltar o produto no prato dos cearenses. 

Por que a área plantada de feijão diminuiu no Ceará?

O Brasil inteiro registrou queda de 54%, passando de 6,153 milhões para 2,816 milhões de hectares plantados de feijão. No Ceará, essa cultura agrícola já não é tão forte como nos estados do Paraná, Minas Gerais e da Bahia. 

Segundo o presidente do Instituto Brasileiro do Feijão e Pulses (Ibrafe), Marcelo Eduardo Lüders, a retração nacional da área plantada é puxada, sobretudo, pela competição com as commodities brasileiras. “É mais vantajoso, por exemplo, plantar soja, milho, algodão”, lista. 

O presidente da Federação da Agricultura e Pecuária do Ceará (Faec), Amilcar Silveira, observa que parte do declínio também pode ser atribuída à queda do consumo per capita anual do grão. 

“De 2002 a 2017, por exemplo, a redução foi de 52%, segundo dados da Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Segundo o estudo, o consumo passou de 12,3 kg para 5,9 kg, no período”, contabiliza.

“Então, não acredito que haverá desabastecimento. O que há é uma acomodação de mercado devido a uma procura menor”, avalia. 

Geralmente, o alimento está mais presente na feira das famílias de rendas mais baixas. O cenário de alta inflação e de desemprego tornou o feijão inacessível para essa população, que é obrigada a substituí-lo pela lentilha, por exemplo, ou até riscá-lo do cardápio. 

Outro fator que pode ter contribuído para o encolhimento da área plantada foi a quebra da safra por decorrências climáticas, segundo o analista de mercado da Central de Abastecimentos do Ceará (Ceasa), Odálio Girão.  

Há risco de desabastecimento?

O presidente do Instituto Brasileiro do Feijão e Pulses (Ibrafe), Marcelo Eduardo Lüders, pondera que, na verdade, pode haver uma diminuição da oferta de algumas variedades de sementes, mas não o desaparecimento total do alimento. 

“Neste ano, temos menos feijão-carioca. Os feijões de corda também têm diferentes variedades”, explica.

O analista de mercado da Central de Abastecimentos do Ceará (Ceasa), Odálio Girão, acrescenta que o Brasil é um dos maiores produtores e consumidores mundiais de feijão, mas também busca o mercado internacional quando há escassez. 

“Recorremos à Índia, à China, Tanzânia, aos Estados Unidos, ao México e até mesmo à Argentina, além do Peru, com a produção de feijão-preto para abastecer o mercado local”, lista.  

Odálio descarta a possibilidade de desbastecimento, mas diz que isso também dependerá da oferta dos mercados nacional e regional na próxima safra, sobretudo, da produção na Bahia, importante para o consumo do Nordeste.

Veja quando ocorrem as colheitas do feijão:

  • 1º safra: janeiro e fevereiro;
  • 2º safra: abril e maio;
  • 3º safra: julho e setembro.


O Diário do Nordeste questionou sobre o risco de desabastecimento ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) e à Secretaria do Desenvolvimento Econômico e Trabalho do Estado (Sedet), mas não obteve retorno até a publicação desta matéria. 

Cenário pode elevar o custo do feijão?

Sim. O presidente do Ibrafe, Marcelo Eduardo Lüder, explica que a redução da oferta pressionará o preço do feijão-carioca, o mais demandado. “O consumidor precisa experimentar outras variedades quando sua preferida está mais cara”, indica. 

No acumulado do ano, o feijão-carioca registrou alta de 28,46%, no Brasil, segundo o Índice Nacional de Preços ao Consumidor (IPCA), medido pelo IBGE. Já o mulatinho registrou alta de 4,99%, enquanto o preto subiu 3,68%.

O analista de mercado da Central de Abastecimentos do Ceará (Ceasa), Odálio Girão, analisa que o valor do produto não deve declinar nos próximos meses diante do cenário.

“Houve a questão do aumento da energia elétrica, que contribui para o plantio e a colheita do feijão, considerando que a maioria da produção brasileira é irrigada”, aponta outro fator de elevação do custo, além da escassez. 

O presidente da Federação da Agricultura e Pecuária do Ceará (Faec), Amilcar Silveira, contudo, acredita que não deverá haver elevação de preços.