Fetiche da industrialização prejudica a exploração de recursos naturais, diz chefe da Petrobras

"O Brasil é uma fortaleza global de recursos naturais. Todavia existem preconceitos contra a produção de commodities, sempre existe o apelo por valor adicionado", afirmou Castelo Branco

Legenda: Castello Branco argumentou que atividades como mineração e exploração de petróleo demandam pessoal qualificado e tecnologia complexa
Foto: Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

O presidente da Petrobras, Roberto Castello Branco, afirmou nesta terça-feira (10) que a exploração de recursos naturais enfrenta preconceito no Brasil e é prejudicada por um "fetiche da industrialização", que cobra investimentos em produtos de alto valor adicionado.

Castello Branco, que já foi diretor da Vale, falava para uma plateia do setor de mineração, em congresso em Belo Horizonte. Em seu discurso, citou exemplos de países como Austrália e Noruega como argumentos de que a exploração de commodities pode contribuir para o desenvolvimento econômico. O executivo deixou o evento sem falar com a imprensa.

"O Brasil é certamente uma fortaleza global de recursos naturais. Um enorme riqueza na agricultura, na mineração e no petróleo. Todavia existem preconceitos contra a produção de commodities, sempre existe o apelo por valor adicionado", afirmou.

A estatal tem enfrentado críticas por se desfazer de atividades como refino e petroquímica, com o objetivo de focar suas atividades na exploração de petróleo. Até agora, a companhia vendeu US$ 15,7 bilhões (R$ 65 bilhões pela cotação atual) em ativos.

Na Vale, disse Castello Branco, também havia questionamentos pelo foco na extração do minério – durante os governos petistas, houve pressões para que a mineradora entrasse em projetos de siderurgia e construísse navios no Brasil. 

"Infelizmente, o fetiche da industrialização tem prejudicado a realização do potencial de crescimento da exploração de recursos naturais", afirmou.

"A Petrobras depois, de descobrir o pré-sal, saiu investindo em refinarias no Brasil, comprando refinarias nos Estados Unidos, no Japão, querendo investir em indústria de transformação, e o resultado disso todo mundo sabe", comenta. 

Alvos da Operação Lava Jato, grandes projetos desse período, como a Refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco, e o Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (Comperj) se tornaram fontes de prejuízo para a estatal.

Castello Branco argumentou que atividades como mineração e exploração de petróleo demandam pessoal qualificado e tecnologia complexa.

"Eu posso dizer, que pro exemplo, produzir petróleo em águas ultraprofundas é muito mais complexo, muito mais sofisticado do que produzir automóveis, por exemplo", afirma.

Ele argumentou que a Noruega, por exemplo, desenvolveu uma indústria fabricante de equipamentos submarinos a partir da descoberta de petróleo no Mar do Norte, que ajudou o PIB per capita do país a ultrapassar o da Suécia. 

"A Noruega, em 1969, tinha um PIB per capita que era igual a 60% da Suécia, o país mais desenvolvido da Escandinávia, com um padrão de vida igual ao dos Estados Unidos. Hoje, a Noruega tem um PIB per capita que é 1,5 vez a da Suécia. Através da exploração de uma boa e velha commodity", comenta.

Já a Austrália, disse, "é cinco vezes mais rica do que o Brasil" mantendo seu foco na exploração de minérios. O país lidera a produção mundial de minério de ferro e de carvão siderúrgico.

"Seria de se esperar que, seguindo esse apelo por valor adicionado, a Austrália criasse uma poderosa indústria siderúrgica. Não. A Austrália optou por ser exportadora de minério e metais e investir em capital humano, criar uma poderosa indústria de serviços técnicos especializados, equipamentos, investir em tecnologia da informação", afirma.


Assuntos Relacionados