Com viagens que custam R$ 260 mil, táxi aéreo ganha força entre clientes a lazer e hospitalares

Estado possui oito empresas com sede em Fortaleza autorizadas a prestar o serviço de táxi aéreo com 38 aeronaves

Escrito por Carolina Mesquita,

Negócios
Legenda: Com menor tripulação e número de passageiros, serviço de táxi aéreo atraiu novos clientes durante a pandemia.
Foto: Divulgação

Considerado um serviço de luxo, a aviação executiva traçou uma recuperação ao longo de 2021 paralela ao avanço da vacinação e já opera em patamar semelhante ao de antes da pandemia no Ceará.

Anteriormente dominada por clientes corporativos, o segmento ganhou força em outras finalidades durante a crise sanitária, como o turismo e mesmo o transporte hospitalar.

Uma viagem de ida e volta entre Fortaleza e São Paulo, por exemplo, pode custar entre R$ 259.853 a R$ 310.272 dependendo do avião

O Ceará possui oito empresas com sede em Fortaleza autorizadas pela Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) a prestar o serviço de táxi aéreo.

O Estado conta com uma frota de 317 aeronaves registradas, sendo 45 helicópteros. Desse total, apenas 38 estão autorizadas ao serviço de táxi aéreo.

Readaptação pós-pandemia

A Líder Aviação, empresa nacional especializada em fretamento aéreo, viu a demanda migrar para a área da saúde após o choque inicial da pandemia.

Conforme a diretora superintendente de Manutenção, Fretamento e Gerenciamento de Aeronaves da companhia, Bruna Assumpção, os aviões foram transformados em UTIs aéreas e deslocavam pacientes de todo o Brasil, principalmente, para São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte.

A autorização da Anac para o transporte de carga biológica, como as doses da vacina contra a Covid-19, também substituiu parte dos voos executivos.

Com o avanço da imunização da população, o turismo foi ganhando espaço. Segundo Assumpção, isso aconteceu porque as famílias já estavam cansadas do isolamento e, com as fronteiras entre países ainda limitadas, os destinos nacionais se fortaleceram.

"As coisas foram voltando ao normal, e a aviação executiva é mais segura do ponto de vista da operação e da saúde, porque voa com um número muito menor de pessoas. Então, as pessoas identificaram essa oportunidade", afirma.

Dessa forma, a empresa já retornou ao patamar de operação nacional anterior à pandemia. A demanda no Ceará e no Nordeste em geral, no entanto, ainda está estabilizando.

Embora o cliente corporativo ainda seja a majoritário entre os passageiros atendidos, no Nordeste, aqueles que buscam lazer e turismo ganham mais espaço.

"A gente atende todo mundo, mas a grande maioria é corporativo: grandes empresários, grandes empresas, até porque a gente é associado ao luxo. Somos uma ferramenta de trabalho", pontua.

Ela detalha que São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Brasília são os principais destinos corporativos atendidos pela Líder.

Já para o turismo, Jericoacoara (CE) figura entre os destaques, ao lado de Trancoso (BA), Mangaratiba (RJ), Florianópolis (SC) e Paraty (RJ).

Legenda: Diretora superintendente de Manutenção, Fretamento e Gerenciamento de Aeronaves da Líder, Bruna Assumpção, revela que patamares anteriores à pandemai foram retomados.
Foto: Cris Mattos

Custos em alta

Assim como a maioria dos produtos e serviços, o custo do fretamento aéreo também subiu durante a pandemia. A diretora da Líder explica que os insumos ligados ao segmento são muito dolarizados, subindo com a valorização da moeda estadunidense.

Outro fator que pesou na conta foram as altas sucessivas do preço dos combustíveis.

Ela esclarece que o valor de um frete é baseado no modelo da aeronave e no número de quilômetros rodados.

Dessa forma, uma viagem de ida e volta entre Fortaleza e São Paulo (Aeroporto de Congonhas) pode custar de R$ 259.853 a R$ 310.272 dependendo do avião.

Confira outras simulações:

  • São Paulo (CGH) – Fortaleza (FOR)

Ida e volta: R$ 259.853,00 em uma aeronave King Air C90GT com capacidade para 6 passageiros

Ida e volta: R$ 310.272,00 em uma aeronave HondaJet com capacidade para 6 passageiros

  • São Paulo (CGH) – Jericoacoara (CRUZ/CE)

Ida e volta: R$ 262.962,00 em uma aeronave King Air C90GT com capacidade para 6 passageiros

Ida e volta: R$ 313.984,00 em uma aeronave HondaJet com capacidade para 6 passageiros

  • Belo Horizonte (PLU) – Fortaleza (FOR)

Ida e volta: R$ 208.475,00, em uma aeronave King Air C90GT com capacidade para 6 passageiros

Ida e volta: R$ 248.848,00 em uma aeronave HondaJet com capacidade para 6 passageiros

  • Belo Horizonte (PLU) – Jericoacoara (CRUZ/CE)

Ida e volta: R$ 211.048,00, em uma aeronave King Air C90GT com capacidade para 6 passageiros

Ida e volta: R$ 251.920,00 em uma aeronave HondaJet com capacidade para 6 passageiros

Uma alternativa mais acessível par a utilização do serviço é a compra de assentos. A modalidade disponibilizada pela Líder vende assentos vagos em voos caso o cliente que fretou a aeronave queira disponibilizá-los.

"Se um fretador quer disponibilizar assentos do voo que podem ser utilizados, a gente dispara as oportunidades que existem no nosso aplicativo e os interessados conseguem comprar apenas o assento", explica Assumpção.

Legenda: Jericoacoara é um dos destinos turísticos mais frequentes nas operações da Líder Aviação.
Foto: Divulgação

Recuperação desigual

Apesar da retomada da demanda, a recuperação tem acontecido de forma desigual no setor. Conforme o diretor da North Star, Paulo Barros, a procura por fretamento de helicóptero já está próximo ao que era antes na pandemia, enquanto os aviões ainda esbarram em algumas dificuldades.

O principal entrave é exatamente o preço do combustível. Ele explica que alguns modelos são abastecidos com gasolina, cujo valor sofreu sucessivos reajustes ao longo de 2021.

Com uma frota de 3 helicópteros, Barros revela que o turismo tem sido responsável por cerca de 80% da demanda atual, impulsionado pela limitação de destinos internacionais durante a pandemia.

Entre os destinos mais frequentes no Estado estão Jericoacoara, Taíba, Canoa Quebrada, Preá, por exemplo.

"Fazemos basicamente todo o litoral onde tem grandes hotéis e resorts. Nós também atuamos em Pernambuco, Rio Grande do Norte e Maranhão", afirma o diretor da North Star.

Atualmente, a companhia realiza de 80 a 100 voos mensais, média que ainda é um pouco abaixo para aeronaves de asa fixa. 

Barros explica que, durante a alta estação, as companhias comerciais disponibilizam mais voos para grandes destinos, como Jericoacoara, retirando parte considerável da competitividade do serviço de táxi aéreo.

O executivo critica a falta de incentivo para que o segmento de aviação executiva atue de forma mais forte. Ele defende que haja incentivos que possibilitem a operação com mais constância.

"O problema que vejo que atrapalha a gente é que tinha que ter mais incentivo de colocarmos aviões, uma vez que estamos dando assistência 12 meses do ano. As grandes empresas entram na alta temporada e depois reduzem tudo", argumenta.

Janela de oportunidade

Assim como a Líder, a empresa cearense Easy Air também está diversificando os segmentos de atuação durante a pandemia. A empresa conseguiu homologação da Anac para transportar pacientes, migração que evitou grandes quedas no faturamento da companhia.

O diretor da empresa, Disraeli Ponte, revela que, em alguns momentos, havia fila de clientes para serem transportados, mas não havia leitos disponíveis.

"Não posso dizer que houve uma queda drástica de faturamento. Houve queda, mas não por falta de clientes, e sim por falta de leitos hospitalares. Eu cheguei a ter 10, 15 clientes na fila, mas não tinha para onde ir", detalha.

Apesar de ainda realizar voos executivos para clientes fidelizados, boa parte da operação da companhia se voltou para o segmento aeromédico.

Ao todo, a empresa está realizando cerca de 30 voos por mês, o equivalente 150 horas de voos, aproximadamente.

Segundo o diretor da Easy Air, a finalidade deve se manter em alta durante o ano de 2022, embora a vacinação deva diminuir a necessidade de internação para pacientes acometidos de Covid-19.

Nesse caso, os casos que já demandavam voos antes da pandemia deve retomar com mais força, prevê ele.

Legenda: Predominantes antes da pandemia, clientes corporativos estão cedendo espaço para turistas e pacientes médicos.
Foto: Helene Santos

Custo do combustível

Assim como os demais atuantes do setor, Ponte demonstra preocupação e insatisfação com o aumento no preço do combustível.

Ele revela que está vendendo dois de seus aviões movidos a gasolina por não serem mais sustentáveis. Em contrapartida, deve repor uma dessas aeronaves que ficará focada no transporte corporativo.

Os reajustes da gasolina e do querosene de aviação, aliados com a alta do dólar, obrigaram a empresa a reajustar o valor do quilômetro rodado cobrado aos clientes em 18%.

"Esses fatores deixam a gente apreensivo, porque daqui a pouco não vai ter quem voe, só em caso de urgência e emergência", pontua.

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