Com reposição de estoques, ociosidade da indústria atinge mínima em 5 anos

Índice de confiança da indústria deve atingir 105,9 em setembro, o maior desde os 106,7 pontos registrados em janeiro de 2013

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Foto: Camila Lima

Com o crescimento da demanda por materiais elétricos, a fabricante Exatron, localizada em Canoas (RS) contratou novos empregados, decidiu ampliar turnos e terceirizou processos que não dá conta de fazer hoje.

A Lorenzetti, sediada em São Paulo, também reforçou a mão de obra e, mesmo assim, está com dificuldades para entregar novas encomendas no prazo normal.

Fornecedora de PVC para o setor, a empresa química Unipar voltou a rodar suas fábricas em Santo André (SP) e Baía Blanca, na Argentina, a todo vapor, depois bater os 40% de ociosidade no período mais agudo da crise, quando teve até que contratar silos para guardar estoques que ficaram sem mercado com a paralisação da economia.

Beneficiada pelo aquecimento do mercado de materiais de construção, a cadeia dos materiais elétricos exemplifica um movimento de recomposição dos estoques que vem levando a indústria brasileira a atingir níveis de utilização da capacidade instalada superior até mesmo a antes da pandemia.

O cenário, porém, é visto por empresários e especialistas como pontual, resultado da desorganização das cadeias produtivas durante os meses de isolamento restrito. Sua manutenção vai depender do ritmo de recuperação da economia e do mercado de trabalho após o fim do auxílio emergencial, em dezembro.

Dados preliminares divulgados pelo Ibre/FGV na segunda indicam que o nível de utilização da capacidade da indústria fechará o mês em 78%, alta de 2,7 pontos percentuais em relação a agosto e melhor número desde março de 2015. Em abril, considerado por economistas o pico da pandemia, o indicador bateu o piso histórico de 57,3%.

"A pandemia ficou só no segundo trimestre. No terceiro trimestre, a indústria começou a se recuperar e pode ser até que volte ao nível de antes da pandemia já em setembro", diz a economista responsável pela análise da pesquisa do Ibre, Renata de Mello Franco.

O índice de confiança da indústria medido pelo instituto deve atingir 105,9 em setembro, o maior desde os 106,7 pontos registrados em janeiro de 2013. Franco ressalta, porém, que os dados comprovam avaliações de que a recuperação é desigual, com mais ênfase em setores voltados a bens essenciais, produtos do lar e materiais de construção.

É o caso, por exemplo, da Exatron, que abriu novos turnos, contratou 20 novos funcionários e está investindo cerca de R$ 2 milhões em equipamentos para expandir a capacidade de produção e dar conta da demanda acelerada.

"A gente trabalhava em um turno só em algumas linhas de montagem e agora estamos em dois turnos. No processo de injeção de termoplásticos, eram 20 horas por dia e agora são 24 horas. E estamos terceirizando algumas linhas que não conseguimos fazer", diz o diretor-presidente da empresa, Regis Haubert.

A Lorenzetti, mais conhecida pelos chuveiros, mas que vende também metais sanitários, aquecedores de água e outros produtos voltados ao lar, ampliou em 321 pessoas seu quadro de funcionários e, mesmo com a produção a todo vapor, está pedindo 20 dias de prazo para entregar novas encomendas.

"Quando a gente fez o plano de vendas ano passado, achava que ia crescer 10% mas estamos crescendo 22%", diz o diretor-presidente da companhia, Eduardo Coli. Hoje, a empresa, que tem 5.300 funcionários, está com os quatro centros de distribuição vazios, sem estoques.

"Em abril nossas vendas caíram mais de 75%, pela paralisação do mercado como um todo. Em maio, as vendas melhoraram um pouco, ficaram em torno da metade. Em junho, já voltaram para o patamar pré-pandemia", conta o diretor-presidente da Unipar, Maurício Russomano.

No pior período de venda, diz ele, os estoques de PVC chegaram a bater três vezes o volume normal. Hoje, a empresa precisa produzir a toda capacidade para atender ao elevado número de pedidos. Parte da produção na Argentina está sendo destinada ao Brasil para dar conta do recado.

Com o maior otimismo, alguns setores já falam em retomar investimentos. No setor de eletroeletrônicos, no qual 82% dos empresários acham que a situação melhorou, 46% das empresas falam em investir este ano. Outros 31% preveem aportes no ano que vem.

"O processo de retomada está em marcha, como também vêm demonstrado nossos indicadores de produção e emprego", diz o presidente da Abinee (Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica), Humberto Barbato.

Presidente da Abimei (Associação Brasileira dos Importadores de Máquinas e Equipamentos industriais), Paulo Castelo Branco, afirma que a demanda já torna mais longos os prazos de entrega de alguns tipos de equipamentos de usinagem, corte de metal e plástico.

Os números do Ibre mostram, no entanto, que o otimismo da indústria se resume ao curto prazo. No longo prazo, há ainda um sentimento de insegurança. "O indicador de expectativa indica otimismo para os próximos três meses; o de produção está alto e o de emprego também está alto. Mas o de ambiente de negócios ainda está bem baixo", diz a economista do instituto.

Este último, ressalta, aponta a visão sobre o cenário nos próximos seis meses e indica que o temor com relação ao prazo para a chegada de uma vacina ou à possibilidade de segunda onda de contaminação vêm afetando a confiança em uma retomada duradoura. "Os números apontam melhora no curto prazo, mas muita incerteza para o longo prazo", conclui ela.

O presidente da Abiquim (Associação Brasileira da Indústria Química), Humberto Barbato, acrescenta que o cenário atual repete padrões de outras crises econômicas: sem encomendas, a indústria reduz produção, os estoques acabam e, quando o consumidor volta às lojas, a cadeia precisa se reorganizar.

"Não acredito que seja sustentável", afirma, mesmo que o setor químico apresente hoje um nível de utilização da capacidade, de 76%, superior inclusive à média de 2019. "As empresas estão muito endividadas, a gente vai demorar outro ano para vencer os efeitos desse período que foi muito duro"

"Minha expectativa é que nos próximos um ou dois meses, a situação se regularize", concorda Russomano, da Unipar. "A essa altura todo mundo já deve estar começando a se estocar novamente."

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