Atacado mira renovação para atenuar perdas em 2020, diz Acad

Setor atacadista e distribuidor do Ceará teve perdas distintas, com o segmento de alimentos menos afetado, mas todos os demais ramos não passaram o isolamento sem prejuízos. Acad prevê recuperação apenas a partir de 2022

Fotografia comércio atacado prateleiras
Legenda: Os mercadinhos de bairro e a cadeia de pequenos negócios são apontados como prioridade do setor atacadista

Sem ter o que lamentar sobre 2019, quando apenas os cinco maiores atacadistas e distribuidores do Ceará somaram R$ 1,3 bilhão em faturamento, o setor prepara uma reinven-ção em muitos segmentos para conter os impactos que a crise deflagrada pelo novo coronavírus causou.

José Milton Alves Carneiro, presidente da Associação Cearense de Atacadistas e Distribuidores (Acad), revela que as empresas voltadas à alimentação reagiram melhor ao cenário de pandemia por estar entre os serviços essenciais, além de abastecer os pequenos comércios de bairros, mas os demais segmentos não passaram o isolamento social sem prejuízo.

"O cenário é incerto. Algumas empresas estão sofrendo menos e terão ainda a oportunidade de crescer, e outras já sofreram tanto que essa oportunidade não existe mais. É fato que estamos em uma nova crise econômica e uma forte crise política, causando altos índices de desemprego e queda do poder de renda da população", avalia, considerando que o cenário da economia atual, no País e no Ceará, pode "afetar negativamente o crescimento em 2020".

Os novos formatos de compra e venda que ditaram a relação de consumo durante o isolamento social devem orientar a renovação dos atacadistas e distribuidores cearenses neste momento para garantir a sobrevivência das empresas, segundo indica o presidente da Acad.

"Além dos próprios impactos trazidos pela pandemia, acredito que nossos desafios estão na forma de como vamos lidar com toda a mudança digital que está acontecendo. Novos formatos de abastecimento estão surgindo, competidores nacionais e virtuais. Temos a necessidade de seguir nos adaptando e, como abastecedores, contribuir para o melhor abastecimento dos pequenos e médios negócios do nosso Estado", avalia Carneiro, sinalizando que estes últimos são os clientes cujo setor mais busca alcançar.

Os mercadinhos de bairro e a cadeia de pequenos negócios são apontados como prioridade do setor atacadista, na qual buscam fazer um trabalho "sem pressão de aumento de compra, e de preço". Foi com este público que as empresas conseguiram sobreviver e até alçar melhores resultados durante o período de isolamento social.

Reação em 2022

Assim como as autoridades públicas, o presidente da Acad despeja sobre os avanços da área de saúde as expectativas sobre uma economia melhor, confiando em vacina e boa estratégia da equipe econômica. "Até lá, viveremos com medo. Dessa forma, não acredito que essas empresas voltem aos melhores patamares antes de 2022", pontua.

Ele conta que nas empresas dedicadas ao abastecimento de restaurantes, bares, hotéis, motéis e eventos, por exemplo, o impacto da crise do novo coronavírus foi bastante negativo, com queda de até 80% nas vendas.

"Da mesma forma, empresas que distribuem bebidas alcoólicas também sofreram bastante, em torno de 90% no canal. Por outro lado, o impacto foi bem menor naquelas que abastecem supermercados com itens básicos como alimentos e produtos de higiene e limpeza, muito em função também do auxílio dos R$ 600 do Governo Federal. Ressalto que, no período, o setor manteve e garantiu o abastecimento em todo o Estado de forma regular", acrescenta.

Mais que crédito

O presidente da Acad comenta ainda que, para as empresas recuperarem faturamentos e vendas, é preciso mais que oferta de crédito.

"Certamente, incentivos. Crédito ajuda, mas os incentivos são fundamentais haja vista a carga tributária que nos assola. Precisaremos levar melhores preços para o mercado para induzir a retomada do consumo. A redução de impostos é a chave para a redução dos preços".

Representatividade

Um estudo da Associação Brasileira de Atacadistas e Distribuidores (Abad), em parceria com a consultoria Nielsen, aponta que o Nordeste é a região que forneceu o maior número de respondentes para o ranking de 2020, com dados do ano passado. Foram 239 atacadistas e distribuidores, correspondendo a 36% dos participantes e 16% do faturamento total das empresas pesquisadas (R$ 43,7 bilhões).

Já o Ceará contribuiu com 17 empresas (7% do total listado na região). Para Carneiro, o Estado é reconhecido nacionalmente como celeiro de distribuidores. "Temos talvez não os maiores, mas certamente alguns dos melhores do Brasil. Falamos aí de estrutura física, investimentos em tecnologia e processos, serviço, além do apoio aos varejistas de todos tamanhos. Dessa forma, entendo que nossa importância em nível Nordeste é ainda mais significativa", avalia.

Faturamento

Segundo pesquisa da Abad, os cinco maiores faturamentos do setor no Estado, no ano passado foram DAG Distribuidor (R$ 787,7 milhões), Costa Brasil Distribuidora (R$ 225 milhões), Sodine (R$ 123,5 milhões), JSB Distribuidora (R$ 120,5 milhões) e Comercial Maia (R$ 105,3 milhões).

"Depois de muitos anos de crise, 2019 foi o ano que muitas empresas fizeram investimentos para melhor aproveitar a retomada. Foi um ano bom, sim, de recuperação. No comparativo 2019 e 2018 crescemos o equivalente a 8,5% (geração de empregos)", completa Carneiro, sobre o mercado de trabalho no Estado.

O DAG Distribuidor está entre as Top 10 empresas da região Nordeste, ocupando o segundo lugar da lista. O crescimento médio da região Nordeste em 2019 foi de 12,5% em comparação a 2018. O presidente da Abad, Emerson Destro, atribui a participação expressiva do setor no mercado à força do varejo independente. "É o canal indireto, fortalecido pela indústria, que abastece o pequeno e médio varejo, que está em crescimento. Esse movimento mostra a importância do setor atacadista distribuidor tanto no aspecto econômico quanto no social", diz Destro.

O setor atacadista e distribuidor do Ceará só deve se recuperar da crise ocasionada pelo novo coronavírus a partir de 2022. Além disso, o impacto da crise foi diferente, dependendo do segmento da empresa

Concorrência no CE é forte e agressiva

O mercado atacadista cearense é competitivo e um dos mais importantes do País, avalia o diretor Regional do Assaí Atacadista, Luiz Carlos Araújo. "O Ceará sempre teve uma importância para a rede. Uma característica marcante do Estado é a presença de importantes redes locais que são players muito bem estruturados, organizados, capitalizados e que continuam em processo de expansão. A concorrência local sempre defendeu o mercado e sempre foi muito forte. A concorrência no Ceará é muito competitiva e agressiva, e isso é bom e importante, trazendo melhorias para o consumidor", aponta.

Segundo ele, diante da pandemia, o Assaí manteve um crescimento de 15% no faturamento entre os meses de março e maio deste ano nas lojas do Ceará, mesmo com um fluxo de clientes menor no período.

"Nós somos uma atividade essencial e vimos uma procura muito forte do consumidor na segunda quinzena de março. A partir de abril e maio, tivemos um movimento constante. Não digo aumento de fluxo, porque temos menos frequência nas lojas até por uma questão de segurança, mas os clientes têm levado mais itens. Houve redução de 8% no fluxo e aumento de 25% no tíquete médio em relação a igual período do ano passado", detalha. Conforme Araújo, foi observada uma mudança também no comportamento dos consumidores.

"A gente teve um crescimento nas vendas de produtos básicos, limpeza, perfumaria e higiene pessoal. Perecíveis e congelados também, e tivemos queda na parte de bebidas frias. É um comportamento notório nas lojas", acrescenta.

O Assaí vai inaugurar no início do segundo semestre mais uma unidade no Estado, na cidade de Iguatu. "Sim, faz parte da nossa estratégia a expansão para o interior cearense. Nós já temos oito lojas no Ceará e estamos em cinco municípios. O interior faz parte desse plano, e Iguatu, a gente vem estudando há uns quatro anos. A gente não pretende parar com os investimentos e expansão de lojas no Estado", explica o executivo.

"Estamos investindo entre terreno, construção da loja e equipamentos em torno de R$ 50 milhões com geração de 500 empregos diretos e indiretos. Penso que 99,9% desses empregos são da cidade de Iguatu. As obras já começaram e estamos com mais de 50% de execução. No mês que vem a gente inicia o abastecimento da loja", pontua.

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