Demanda reprimida e novos produtos guiam retomada da confecção

Pedidos de lojas que funcionaram com vendas online e popularização de novos itens, como as máscaras de proteção facial, surgem como oportunidades de negócios para as pequenas confecções no Ceará

Legenda: Costureiras não compartilham mais as máquinas e lavam as mãos assim que chegam ao trabalho
Foto: Foto: Fabiane de Paula

Aos poucos, a rotina de Clemilda Sales e dos costureiros que trabalham na facção da qual ela está à frente vai mudando. Após a interrupção brusca provocada pela paralisação das atividades em decorrência do novo coronavírus e de ter encontrado a sobrevida da facção de moda feminina na fabricação de máscaras faciais, progressivamente os cortes de shorts, saias e vestidos voltam a encontrar o calçador da máquina de costura, que é ligada a toda velocidade.

As roupas, cuja produção normalmente chegava a mil peças por semana, são costuradas, cuidadosamente, por partes. Cada uma delas é finalizada em dois dias. Mas a atenção maior agora também se dá não apenas no acabamento, mas também na higiene dos processos feitos pelas costureiras e demais funcionários em atividade.

Agora, eles não compartilham mais as máquinas e lavam as mãos assim que chegam ao local de trabalho. A máscara, que ajudou a fábrica a não parar no momento mais crítico, não gera nenhum desconforto. Ao contrário, ganhou tanta intimidade com os funcionários, que virou item mais que obrigatório.

Rotina

As oito costureiras já chegavam em horários alternados, a partir das 7h, o que contribui para evitar a aproximação, apesar do espaço não permitir tanto distanciamento entre cada posto.

"Eu nem me incomodo mais com o uso da máscara, a gente já se acostumou. É tanto que eu vou para casa e já coloco logo de molho", diz Clemilda. As recomendações de higiene e cuidado partiram, sobretudo, de uma das marcas para as quais elas costuram as peças de roupas e, agora, as máscaras.

"Eles exigem que a gente tenha cuidado e higiene, até porque nós estamos na fabricação de máscaras. Graças a Deus, até agora, ninguém adoeceu, mas se tiver alguém querendo gripar, com dor de cabeça ou algum outro sintoma, a gente já manda pra casa", detalha.

Novas demandas

Ontem (1º) foi o dia em que teve início a fase de transição do Plano Responsável de Abertura das Atividades Econômicas e Comportamentais no Ceará, mas o trabalho não parou para a costureira Natália Melo, Ela já trabalhava com encomendadas de uma outra loja cujas vendas online continuaram aquecidas apesar da pandemia, atendendo assim a uma demanda reprimida.

Enquanto isso, o restante da equipe focava na costura das máscaras - item que virou necessidade básica e um novo nicho do mercado para o setor de confecções no Ceará.

Expectativa

A expectativa maior da Natália, da Clemilda e das outras costureiras é em relação ao próximo dia 8 de junho: com a abertura do varejo do setor e a provável redução dos estoques, a demanda deve aumentar e "a roda voltará a girar", na avaliação de Clemilda.

Preparando-se para o momento, ainda nesta semana, mais costureiras ficarão com as peças de moda feminina. "Esses vestidos aqui, olha, faltam só o zíper", mostra Clemilda. "A gente já vai deixar pronto, porque esses dias não vão mandar mais tecido cortado para as máscaras, aí a gente volta para a moda feminina", afirma, sobre os planos de retomada do negócio.

A ideia, de acordo com ela, é ir gradualmente passando da costura de máscaras para a moda feminina, retomando a operação de antes da pandemia. "A gente ainda vai fazer máscaras, que se tornou um item obrigatório e as pessoas continuam precisando. Ainda vai ter essa demanda, mas aos poucos a gente volta para a moda feminina", pontua.

Ano perdido

Apesar de certa esperança, ela avalia que este é um ano perdido em termos de faturamento. "Já até conversei com as meninas que vai ser um ano sem lucro. Vai ser só para a gente se manter", lamenta.

Enquanto costurava as máscaras, Iolanda Viana disse que vê a normalização gradual das atividades com bons olhos. "A gente ficou um tempo em casa. Costurar as máscaras foi ótimo, porque a gente tem contas para pagar, mas ainda bem que as coisas estão começando a voltar ao normal".

Ajuda extra

Trabalhando menos no seu emprego principal por conta da pandemia, Erivelton Gomes também ocupa uma das mesas. Enquanto a esposa costura próximo a ele, Erivelton dobra e embala as máscaras a serem entregues ao cliente. Não deixa de tomar o mesmo cuidado que as outras funcionárias tomam na higienização antes de começar o ofício novo. Para ele, o processo de dobrar e embalar o tecido chega a ser terapêutico.

"Eu trabalho como prestador de contas, dia sim, dia não. Aí a gente está revezando e eu venho ajudar a minha esposa. É um dinheiro que já ajuda a pagar as contas", diz Erivelton. E ele não é o único. Clemilda relata que "cada costureira tem o seu ajudante". Ao longo da semana, as costureiras têm levado os maridos para ajudar no trabalho e otimizar o processo de fabricação.

Orientação

Seja para pequena ou para a grande empresa de moda, Elano Guilherme, presidente do SindConfecções, que representa o setor, informou que repassou os protocolos de saúde que orientam a operação no setor e ainda está elaborando uma cartilha para distribuir entre os associados.

Com pedidos encomendados pelas lojas de roupas, pequena facção de roupa planeja aproveitar a liberação para volta ao trabalho para recompor as perdas acumuladas nos dias em que ficaram sem funcionar